Crítica: ‘Mishima – Uma Vida em Quatro tempos’(1985), de Paul Schrader

Utilizando de uma atmosfera lúdica para criar sua obra, Paul Schrader entrega aqui o filme mais impactante de sua carreira como diretor. Um filme que aproveita quase que exclusivamente do brilho de seu roteiro para conceder a substância necessária à obra. ‘Mishima – Uma Vida em Quatro tempos’ é intenso do começo ao fim, sempre indagando em sua essência os conceitos básicos que regem as atitudes do ser humano, como o preceito de vontade de potência, o existencialismo como força indagadora e o suicídio como instrumento de glorificação.

O filme, separado em quatro capítulos, conta de maneira romantizada pequenos fragmentos da vida do escritor japonês Yukio Mishima. São abordados pelo filme temas centrais da vida do escritor, sua sede por reconhecimento e sua derrocada épica ou saída triunfal do mundo, dependendo da maneira como decidimos analisar. A história não segue exatamente uma linha cronológica precisa, alternando entre diversos momentos da vida do personagem. Não há momentos pontuais de exacerbação na obra, todo o filme segue uma linha única e intensa de contar sua história.

No começo do filme teremos uma sucessão de cenas que servirão para ambientar o espectador em sua atmosfera. O ritmo do filme é consistente, jamais alterando seu grau de intensidade em seus 121 minutos de duração. E a absorção deste começo é essencial para entender o que motiva o protagonista.

Toda a construção de cenários utilizada pela direção serve para poder evidenciar a figura do roteiro. Serão desprezadas a maioria dos recursos habituais utilizados em obras dessa densidade. A única proposta utilizada aqui é a de entregar toda a responsabilidade da construção do filme nos diálogos e a figura narrativa conduzida pelo personagem principal.

Escrito por Paul Schrader e Leonard Schrader, o roteiro é extremamente bem construído. Os diálogos contidos no filme servem como parâmetros para o ambiente ao redor, e não o contrário. Todo o filme é devotado ao roteiro. E aqui surge a importância do narrador dos eventos, na figura do próprio personagem de Yukio Mishima, para conduzir e destilar seus pensamentos sobre a vida, conceitos políticos japoneses e, inevitavelmente, a morte. Cada pequeno diálogo, cenário dos eventos e os preceitos narrativos sofrem uma espécie de simbiose, tornando impossível a ideia de analisar cada item de forma isolada.

Esse bom trabalho de Paul Schrader no roteiro também se aplica em sua direção. Tudo aqui é feito de maneira simples, baseando-se sempre no aspecto do devir presente no mundo, onde cada item da obra e espectro de direção sofre um constante processo de mutação. E simplesmente toda a estética do filme serve para relatar isto.

Vários dos ambientes explorados são construídos com maquetes e objetos fora da proporção real, dando apenas um esboço, deixando totalmente a encargo da imaginação do espectador suas consistências. Schrader utiliza nas construções dos cenários o que Lars Von Trier faria de uma maneira muito mais intensa em ‘Dogville’(2003). Porém, aqui o diretor utiliza essas construções limitadas de cenários para levar ao espectador a aura explosiva que emana do ser humano e da natureza a sua volta, onde temos em várias cenas uma completa desconstrução dos ambientes e objetos ali presentes.

Ainda teremos a utilização de uma estética móvel no filme por meio da fotografia de John Bailey. Sofreremos uma divisão em três partes na sua estrutura, onde a primeira se notabiliza pelo uso do preto e branco, a segunda já seguindo o modelo tradicional, utilizando um tom padrão, e a terceira com uma tonalidade mais quente. Essas três divisões servem como um parâmetro do que passa na cabeça dos personagens em determinadas cenas. A fotografia ainda trabalha por dar ao filme um enaltecimento da figura humana em cada cena, dando em cada enquadramento a sensação de superioridade do homem perante o ambiente ao seu redor.

A ideia central do filme de dar todo o suporte possível para que o roteiro comande as ações jamais poderia ter sido feita com a qualidade desejada se não tivéssemos a utilização de uma boa trilha sonora. Comandada por Philip Glass, todas suas composições utilizadas servem para nortear o espectador do conteúdo que está sendo mostrado em tela, sabendo o momento exato de aumentar e diminuir seu ritmo, sem nunca perder a intensidade.

Esse uso constante da palavra intensidade não é demasiado. Todos os conteúdos explorados pelo filme requerem que essa palavra seja lembrada constantemente. Por meio dela teremos o surgimento de alguns conceitos presentes na obra. O vazio existencial surge no protagonista durante toda sua vida. Mishima tenta a cada ato exacerbado dar alguma substância a sua vida. O homem sente a necessidade de justificar sua existência perante o mundo. E é neste ponto que somos inundados com o conceito Nietzschiano de vontade de poder. Mishima não quer somente preservar seu ser no mundo, ele quer cada vez mais elevar-se perante este. Quer que suas motivações sejam as motivações de seu país. Essa vontade de poder assume tons narcísicos durante a trajetória do personagem, onde a completa devoção de si próprio acaba dando ao homem um ar alheio ao que o cerca. E é nesta figura patológica do narcisismo que surge a ideia do suicídio como ato de glorificação de tudo que buscou em sua vida.

A busca de Mishima serve para martelar as ideias construídas em sua vida. A morte por meio do “Haraquiri”, um código suicida elegante dos samurais, é o final perfeito para sua vida aos olhos do protagonista. Todo o desencadeamento das cenas finais mostram que, por mais que este conceito ético dos samurais tenha vários nuances, onde o suicídio é algo surgido de forma exterior e não interior, como no ocidente, fica claro que Mishima usa o código meramente como desculpa para seu ato. E a maneira de como toda essa ideia é mostrada em tela é de uma sensibilidade ímpar.

O elenco utilizado no filme está bem, sem, no entanto, ser algo que se destaque. Porém, vale apontar a atuação de Ken Ogata, nosso protagonista, como o grande ponto de sustentação de todo o elenco. Ogata entrega um misto de sabedoria e exasperação em seus atos, sobrepujando, quando está em cena, qualquer outra peça do elenco.

O melhor filme de Schrader é um testemunho de amor ao constante interesse ocidental no modelo rígido conduzido pelos japoneses em seu país. Uma obra lúdica que encanta o espectador durante suas duas horas de duração pela sensibilidade que estuda o comportamento humano no mundo. ‘Mishima – Uma Vida em Quatro Tempos’ é um filme que questiona todas as bases morais e éticas de uma cultura para entender determinados fatores que regem o nosso construto psicológico.

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