Crítica: ‘O Mistério de Candyman’(1992), de Bernard Rose

Nutrindo uma atmosfera imersiva, tratando por evidenciar o mundo atraente que permeia a proliferação de determinadas lendas urbanas, ‘O Mistério de Candyman’ é um dos filmes de terror mais potentes da década de 1990. Um filme que traz com seu clima decadente toda a sujeira que emana do convívio social tangido pelo preconceito em algumas cidades. Junte tudo isso a uma protagonista forte e obcecada pelos desmembramentos dos mistérios do filme e uma trilha sonora fabulosa e você terá uma obra irresistível.

A história do filme se concentrará em uma grande lenda urbana acerca de um espírito maligno, intitulado de ‘Candyman’. Candyman, diz a lenda, assombra uma pequena comunidade carente, esquecida pelo mundo, onde no passado havia sofrido uma terrível vingança. Candyman é um homem negro, com um gancho no lugar de uma das mãos e coberto por abelhas. A trama do filme ganhará força quando duas estudantes decidem fazer um artigo para sua universidade sobre o famoso mito. Os problemas começam a aparecer quando uma das mulheres acaba ficando obcecada com seu artigo, disposta a ir até as últimas consequências atrás de respostas.

Desde os primeiros minutos de filme já podemos prever o quanto a obra se baseará na construção de sua atmosfera para dar densidade à história. Somos inundados com uma cinematografia fria, onde exploramos ambientes que parecem sem vida e circundado por poucos indivíduos. Essa atmosfera decadente causa uma imersão instantânea do espectador em sua história.

Os desnivelamentos da história não são acelerados como é tradicional no gênero. Temos a oportunidade ímpar de nos aprofundarmos no que consiste a personalidade de nossa protagonista, uma mulher com uma sede inabalável por reconhecimento. Toda a motivação da criação de seu artigo para a universidade parece ser iniciada pela ambição da mulher em ter seu nome colocado em evidência no meio a qual está inserida.

A aproximação da mulher no mundo que tange as lendas urbanas é construída naturalmente pelo filme. Pouco a pouco a mulher vai ficando presa no emaranhado que permeia o mistério da lenda a qual se dispôs a estudar. Ela começa a descobrir que essa lenda urbana poderia ter mais substância do que achara outrora. E é a partir desse momento que o ritmo do filme começa a aumentar e a saúde mental da protagonista a diminuir.

Vale apontarmos para a forma de como o filme se pressupõe a abordar o universo das lendas urbanas. Não teremos aqui algo superficial, como ficaria evidenciado em filmes posteriores da década, todo o mistério da história é composto por várias camadas, desde a obsessão da protagonista até os desmembramentos da lenda em questão.

A derrocada que a protagonista acaba enfrentando em sua investida é cruel em todos os seus níveis, quando veremos todas as figuras que lhe davam conforto em sua vida pessoal se afastarem ou serem destruídas pela obsessão destrutiva na mulher. É nesse momento que encontraremos o ponto alto do filme, onde há um aumento da tensão. Os sustos passam a ocorrer naturalmente, porém o que mais causa medo são os nuances construídos pela história.

A direção de Bernard Rose é muito boa em todos os seus desnivelamentos. A forma como o diretor constrói cada espectro de temor no espectador, com o auxílio de seu roteiro, baseado em uma história de Clive Barker, é fantástica. Rose utiliza a figura climática para impelir sensações em quem assiste a história. Outro ponto que merece destaque é toda a ambientação onde ocorrem os fatos mais relevantes da história, no bairro de Cabrini-Green, um lugar esquecido por deus. O lugar por si só já emana uma aura assustadora incrível. Todas as construções dos cenários são extremamente bem conduzidas. E, claro, todo esse trabalho competente de Rose não seria possível sem a trilha sonora contemplativa.

Comandada por Philip Glass, a trilha segue um padrão suave, servindo para capturar a atenção do espectador em toda aquela atmosfera fria e defasada do filme. E essa suavidade passa longe de ser algo que não transmita a sensação de medo em quem assiste. Essa suavidade só é quebrada nas cenas onde ocorre a utilização de “jump scares” pelo diretor, porém passa longe de perder sua consistência.

Já no campo do elenco, muito do brilho do filme se concentra na figura de Virginia Madsen, a protagonista. Madsen transpõe ao público todo o caráter forte de sua personagem, se fazendo inquieta com sua atual situação na vida, sempre procurando se elevar perante seu meio acadêmico. A atriz é suave em sua atuação, mesmo passando toda essa força em seus atos, fazendo nos sentirmos compadecidos com seu processo de inserção na loucura que caracteriza a lenda. O resto do elenco também se faz muito bem, com destaque para a presença de Tony Todd que consegue adentrar em toda a mística de seu personagem.

‘O Mistério de Candyman’ é um ótimo filme de terror. Um filme que não recorre às maneiras superficiais de espantar o espectador, algo que fica explícito na cena do banheiro em Cabrini-Green, procurando sempre pela melhor forma de provocar medo de forma inerente. A trilha sonora, cinematografia, atores e etc, tudo é colocado para dar a melhor adaptação possível ao que o roteiro nos traz.

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