Crítica: ‘Violette’(1978), de Claude Chabrol

Claude Chabrol lança aqui um pequeno esboço do que faria a perfeição dez anos mais tarde. Em ‘Violette’, somos introduzidos à vida de uma jovem desconexa da realidade com a única projeção de viver o máximo cada momento. O filme abordará as implicações familiares, sociais e morais das atitudes desmedidas da jovem, sempre levando em conta o período histórico turbulento que permeava o local na época.

Baseada no livro de Jean-Marie Fitère, a trama do filme vai nos trazer a vida de Violette, uma jovem mulher, alocada na França pré-intervenção alemã na 2ª Guerra Mundial, que leva uma vida de aparências, separando sua vida em família de suas incursões atrás de sexo pela cidade. Ficaremos, nas mais de duas horas de filme, acompanhando os passos de Violette e suas atitudes ausentes de sentido. Veremos sua derrocada em diferentes fragmentos, sejam eles familiares ou psicológicos.

Os momentos iniciais do filme servem para tatuar na cabeça do espectador a aura de camaleão que rege o comportamento de Violette. Vemos a jovem primeiramente em um bar tentando conquistar algum homem para levá-la a cama, vestindo-se com roupas chamativas e uma maquiagem carregada. Quando retorna para sua casa, a jovem se transforma em uma menina doce, com uma relação muito carinhosa com seus pais e uma vida monótona e tranquila.

A jovem ainda, quando defrontada com alguma acusação da família, consegue mentir da maneira mais natural. Mesmo quando pega em flagrante pela mãe tirando dinheiro da carteira de seu pai, a jovem consegue inventar uma desculpa para justificar aquilo. Essas mentiras aos poucos vão ficando insustentáveis conforme o comportamento da jovem vai fugindo ao controle.

Violette sempre procura aproveitar ao máximo cada momento. Para a jovem, sair à procura de homens para fazer sexo e ganhar certa quantia por isso não é prostituição. E, mesmo sendo de uma classe social baixa, as quantias angariadas com seus encontros com os homens parecem ser dispensáveis, a jovem não faz nada importante com o dinheiro que justifique suas atitudes. Violette faz aquilo porque gosta. E sua busca insaciável por prazer acaba refletindo em sua saúde física.

Logo Violette recebe a notícia que suas práticas sexuais exacerbadas lhe trouxeram uma doença contagiosa. Quando seus pais ficam sabendo da notícia pelo médico, as diferentes máscaras sociais que regem a personalidade da jovem começam a se desfazer. Suas diferentes formas de viver acabam sofrendo uma junção patológica e Violette direciona toda essa intensificação de seu comportamento contra seus pais.

O filme ganha muito de seu charme ao não revelar todos os desmembramentos passados daquela família. Ele apenas nos dá algumas pistas. Talvez o comportamento de Violette tenha chegado a essa etapa em detrimento de uma infância marcada por abusos por parte de seu pai. Algo que é trazido à tona mediante a exposição de seus sonhos. A verdade não nos é entregue pelo filme de uma forma muito inteligente, porém há a certeza de que algo aconteceu em seu desenvolvimento que acabou limitando sua capacidade de se tornar uma mulher normal.

Conforme o filme vai chegando em seus momentos derradeiros, Violette começa a chegar em uma fase de quebra com a realidade. Seus atos são fora de proporção e acabam somente trazendo consequências negativas para a própria jovem. As cenas finais fogem um pouco da atmosfera criada pelo filme durante toda sua duração, mas se fazem necessárias.

A direção de Claude Chabrol segue por um padrão cru de se fazer cinema, onde as cenas se desenvolvem naturalmente, porém com um ritmo bem cadenciado. A utilização da trilha sonora não propicia nenhum tipo de mudança na densidade ou, até mesmo, na absorção da história. Chabrol ainda faz um interessante uso de uma câmera mais ativa no filme, que acaba por se mover ou criar efeitos de aproximação e afastamento que seguem a intensidade da protagonista em suas metamorfoses iniciais, quando passa de uma mulher provocante para uma jovem inocente. O ponto negativo de toda essa parte técnica vai para a edição um pouco abrupta em algumas ocasiões. Comandada por Yves Langlois, a edição acaba prejudicando o andamento natural algumas cenas, cortando para a sequência seguinte sem que a última tenha se fechado por completo.

Chabrol, dez anos mais tarde, iria fazer uma obra muito parecida em sua temática e com a mesma atriz que protagoniza este filme, entregando, no entanto, algo muito mais robusto. ‘Um Assunto de Mulheres’(1988) é uma espécie de sequência para este filme aqui. Todos os conceitos utilizados em ‘Violette’ são intensificados e mais bem construídos no filme de 1988. Esses dois filmes similares servem para evidenciar o quanto um profissional pode evoluir em dez anos. E, neste caso, como Chabrol pôde intensificar o seu já fabuloso modo de se fazer cinema.

O filme é entregue a brilhante Isabelle Huppert. Huppert, ainda em processo de maturidade, entrega aqui uma atuação concisa, sabendo trabalhar com as diferentes formas de sua personagem. Seu ritmo de atuação se altera conforme a personagem demanda, em alguns momentos utilizando de uma grande intensidade, em outros prezando por gestos simples e frios. Essa facilidade em caminhar pelas diferentes personas da protagonista é o que alavanca sua atuação e o próprio filme.

‘Violette’ é um bom filme que não é ausente de erros em sua completude, mas que consegue trazer em sua essência a exposição ausente de julgamentos de personagens comumente trajados como uma espécie de escória social. Chabrol, como é comum em sua filmografia, apresenta um olhar sensível sobre essa camada da sociedade negligenciada, seus atos muitas vezes exacerbados e o preconceito que lhes acomete em diversos momentos. Um filme que ainda marca a primeira contribuição entre o diretor e Isabelle Huppert, uma parceria memorável da história do cinema.

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