Crítica: ‘A Fraternidade é Vermelha’(1994), de Krzysztof Kieslowski

Seguindo o padrão imposto pelos dois filmes anteriores da trilogia, ‘A Fraternidade é Vermelha’ busca sempre usar da sensibilidade para guiar os passos dos personagens principais e, por consequência, do filme. Sempre utilizando de uma atmosfera fria, Krzysztof Kieslowski tenta contrastar isso com as caracterizações dos personagens, no entanto, usando o vermelho como contraponto essencial para os rumos da história. Uma obra que ainda analisará a possibilidade da invasão de vidas alheias como escape para a própria e a figura do acaso como ordenamento para fatores.

A história nos coloca para acompanhar os passos de Valentine, uma jovem modelo, com uma vida agitada, que, em uma noite chuvosa, acaba atropelando um cachorro na rua. Valentine encontra na coleira do animal ferido um endereço e se encaminha para o lugar para contatar seu dono. Esse é o ponto que ligará a jovem na figura de um senhor de idade disperso da vida e seu estranho hábito de espiar a vida de seus vizinhos por uma escuta telefônica. O filme passará toda sua duração nos mostrando o vínculo inquebrável que acaba por surgir entre os dois e como um acaba servindo de apoio para o outro.

Entraremos, a priori, no cotidiano intenso de Valentine destrinchado diante de nós, com sessões fotográficas, aulas de balé e conversas paralelas com um namorado ausente pelo telefone. Esse cotidiano acaba impedindo que a jovem tenha um tempo para si, para maturar, de alguma forma, seus passos em relação a tudo e suas relações interpessoais. O filme ainda faz uma leve menção a um irmão viciado em drogas da jovem que se encontra em outro país e como isso incomoda Valentine. E é justamente em meio a esse turbilhão de eventos pessoais e profissionais que a figura do acaso faz sua aparição para encaixar as peças da vida da jovem.

Esse acaso surge na figura do cachorro atropelado que une dois indivíduos que tinham em suas vidas lacunas aparentemente permanentes. Esse primeiro contato entre Valentine e Joseph Kern, o senhor dono do cão, um juiz aposentado, é permeado de melancolia e desapontamento com a vida por parte de Joseph.

Conforme a relação de amizade dos dois começa a se desenvolver, Joseph revela a Valentine seu estranho costume de espiar conversas alheias. A jovem sente certa repulsa pelos atos do homem, mas acaba desenvolvendo uma espécie de atração pela intimidade invadida daquelas pessoas. Essa divisão de sentimentos em Valentine lhe traz um incômodo consigo mesma. A figura fraca e patética daquele homem lhe trazia similaridade com sua própria essência.

 Essa invasão da vida alheia serve para os personagens, principalmente em Joseph, como uma forma de fuga para suas próprias vidas. A inabilidade em lidar com as consequências de atos anteriores faz com que essas duas pessoas encontrem na vida de outros um conforto. Ambos não querem agir sobre o mundo, eles querem e são apenas guiados por este. O incômodo surge apenas em Valentine, e ela trabalha por mudar isso e fazer com que Joseph mude também.

O filme vai utilizar de um ritmo cadenciado único durante todos os seus 99 minutos. A adesão dos tons de vermelho, como dito no início, serve como uma diferenciação de toda a frieza da atmosfera, porém também está ali para evidenciar toda a intensidade presente em Valentine, toda sua força e impetuosidade para mudar determinados fatos e eventos. E é nesse ponto que está à substância da trilha sonora, a mais sutil da trilogia.

Comandada por Zbigniew Preisner, assim como nos outros dois filmes, essa trilha atua unicamente para seguir esse clima frio imposto pelo filme. As composições, diferente de ‘A Liberdade é Azul’(1993) e ‘A Igualdade é Branca’(1994), são simples e comedidas. Todo o trabalho de acentuar os nuances psicológicos da protagonista já é feito pela direção e a cinematografia que faz o uso contínuo do vermelho.

A direção segue todo o trabalho realizado nos dois filmes anteriores, utilizando muito de enquadramentos que mostrem os personagens despidos emocionalmente diante do espectador, seja por um close no rosto, na colocação de um plano fechado ou na apresentação de um embate moral. Kieslowski ainda faz questão de adicionar em diversas tomadas a apresentação de, no mínimo, um objeto em vermelho que ajuda a evidenciar o campo psicológico exacerbado da protagonista mesmo diante daquele ambiente frio e melancólico que segue o filme.

O elenco, composto em seu eixo de relevância por Irène Jacob e Jean-Louis Trintignant, está muito bem no filme. Os dois protagonistas revelam uma química inerente quando estão juntos em cena, passando ao espectador toda aquela incerteza ao se comportarem. Tanto Jacob quanto Trintignant utilizam muito da tranquilidade para guiar suas interpretações. Não teremos espaço para gritos ou comportamentos exacerbados dos atores, tudo aqui é feito de maneira calma e limitada. Isso apresenta um papel preponderante para o sucesso do filme.

O término do filme, e consequentemente da trilogia, traz de volta o acaso tão utilizado por Kieslowski não só neste filme, mas também em obras como ‘Não Matarás’(1988), ‘Amador’(1979) e, principalmente, em ‘Sorte Cega’(1987). Esse acaso do final do filme traz um verdadeiro emaranhado entre todos os personagens que compõem esta trilogia. E, mais do que o simples acaso, a ideia de predestinação presente em nossos atos. Uma ideia de destino como último conceito.

‘A Fraternidade é Vermelha’ é o capítulo final que necessitávamos para uma trilogia de tamanha qualidade. Um filme que não fará nenhum tipo de concessão ao mostrar as vidas de dois indivíduos destrinchadas diante do espectador. Kieslowski nos mostra como, às vezes, podemos encontrar segurança onde menos esperamos.

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