Crítica: ‘A Espada da Maldição’(1966), de Kihachi Okamoto

Obra-prima em todos seus conceitos, ‘A Espada da Maldição’ é um deleite para seu espectador do primeiro ao último minuto. Seu diretor, Kihachi Okamoto, promove aqui uma enorme variedade de métodos para captar a aura da trama, entregando um trabalho magistral. Concomitante a isso, a trama vai nos trazer um dos personagens mais interessantes do cinema oriental, em um misto de psicopatia e loucura.

A trama nos coloca para seguir os passos de Ryunosuke Tsukue, um exímio samurai, temido por todos a sua volta, que promove por onde passa um senso de destruição alarmante. A história ganhará força quando Ryunosuke acaba por matar um rival em um combate de estilos, despertando a irá geral da comunidade, iniciando um embate que durará anos até sua iminente derrocada.

Desde os minutos iniciais teremos uma clara noção do que o filme irá nos apresentar. A direção focará em uma grande ampliação de planos e suas formas de serem captados para expor as nuances que vão reger o comportamento problemático de Ryunosuke e o ambiente que o permeia. Veremos como o homem age sobre o mundo, aniquilando tudo aquilo a que tem contato, seja no próprio âmbito físico ou na questão psicológica.

O filme jamais perde esse ritmo inicial, todos os seus 119 minutos de duração são permeados de uma carga enérgica. Os momentos mais agitados, enumerados por batalhas, até os mais calmos, regidos por diálogos serenos do protagonista, vão sempre se pautar em um senso único, ambos reverberam no mesmo tom. E é aqui que teremos a questão do silêncio relatado pelo filme.

Esse silêncio atuará por transpor ao público toda a aura distante em relação ao ambiente que cerca Ryunosuke. Teremos cenas onde a única coisa que se pode escutar é o som ambiente do local, com planos que capturam a feição sempre fechada do samurai e a nítida sensação de que a vida para ele se notabiliza como um peso. O silêncio aqui é incômodo e só está inserido nas cenas onde o protagonista está presente

O sentimento de distanciamento e refutação mediante a vida é evidenciado pela vestimenta característica do personagem. Além das tradicionais roupas, o samurai possui um chapéu que sempre esconde seu rosto. Como se ali tivesse um espectro, Ryunosuke nega essa exposição ao ambiente que o cerca, escondendo-se desses estímulos. E, como um animal, quando se sente ameaçado, ataca sem a menor piedade.

É aqui que encontramos pequenos elementos que lhe trazem prazer na vida, matar e obter poder. A questão do poder aqui não fica limitada a um campo do reconhecimento social. Não. Como exposto acima, o homem despreza qualquer estímulo de um possível intercâmbio social, a não ser que seja com fins sexuais. Diferente disso, o conceito de poder para o homem é poder diminuir(e entenda isso na forma da própria destruição) o outro.

Ryunosuke diminui o outro sempre em um processo defensivo, nunca provocado. Seu próprio estilo de luta é guiado pelo contra-ataque. Primeiro o oponente desfere seu golpe, para, somente depois, Ryunosuke o punir por isso. E é dessa forma em todas as esferas de sua vida. Porém, tão fascinante quanto acompanhar sua maneira peculiar e destrutiva de levar sua vida é assistir sua épica derrocada.

Carregada de sofrimento para os que convivem com ele, mais especificamente sua esposa, a loucura aparece no samurai conforme seu método de guiar a vida começa lhe trazer problemas financeiros. O homem não se encaixa em nada, e, quando o faz, sempre trabalha por ofender e rivalizar com seus superiores. Ao passo que as demandas financeiras aumentam, o homem passa projetar uma espécie de vida em que se faz atuante, onde tem que procurar por algo e não mais simplesmente esperar. É essa projeção que quebra o esboço de sanidade no samurai e faz com que seus atos saiam completamente do normal para ele.

Neste ponto se inicia um enorme emaranhado de mortes, sem nenhum tipo de concessão, acarretando na fuga do samurai de diversos lugares, não formando um lugar fixo para residir. O auge da insanidade surge no aparecimento de fantasmas de indivíduos assassinados por ele. Adentraremos, durante alguns momentos, na pele de Ryunosuke e seremos, assim como ele, acometidos pelas alucinações das figuras dos mortos. O samurai perde completamente seu senso de realidade, começando uma empreitada maluca, e final, contra tudo que vê pela frente.

Esses minutos finais nos apresentam como aquele indivíduo nutria uma obsessão irrefutável mediante suas ações. Uma vez traçado o perfil da conquista, o homem não pararia até conquistá-lo. E o final do filme é uma homenagem a seu protagonista. Exposto ao conceito da morte inelutável e inescapável, o filme tatua em seus últimos frames a recusa em dar um fim ao seu personagem. O diretor deixa evidente na última imagem o peso de dar um fim àquilo que estamos acompanhando. E ele se nega a fazer isso com esse último elemento.

A direção de Kihachi Okamoto é impecável. Okamoto trabalhará com uma alternância frequente de quadro para quadro, tudo para dar agilidade às cenas e pegar a melhor feição e atribuição dos atores e cenários escolhidos. Esse modo de trabalhar com cada quadro atuará também por contar a história sem a necessidade de palavras ou composições sonoras. O diretor também faz um uso preciso do “zoom in”, quando quer transpor ao espectador o peso de cada personagem e seu discurso do momento, e “zoom out”, usado aqui quando os personagens terminam suas falas, causando com esse distanciamento de câmera a ideia de absorção ao que foi exposto no espectador. Durante todo o filme Okamoto vai fazer uso desse estilo para as cenas mais calmas, onde imperam unicamente os diálogos.

Vale também pontuar as cenas de combate inseridas no filme. Algumas vão trabalhar com o aspecto bem atuante da edição rápida do filme, conseguindo criar um ar verossímil ao que está sendo mostrado. Nas outras, no entanto, veremos a execução de planos-sequência, com cenas únicas, filmadas e trazidas ao público como uma espécie de balé. Essa edição citada, realizada por Yoshitami Kuroiwa, vai ser, inexoravelmente, inquieta. As cenas vão caminhar por uma edição que sempre vai procurar a melhor forma de criar um todo ágil.

A cinematografia também é algo que não destoa do resto da obra. Realizada por Hiroshi Murai, cada fragmento de quadro vai ajudar o espectador a formalizar uma ideia do constructo psíquico de cada personagem. Desde a primeira cena, onde vemos o protagonista com seu tradicional chapéu e todo o ambiente natural a sua volta, teremos a clara sensação do que constitui o personagem. E isso está inserido durante todo o filme.

O elenco conta com Tatsuya Nakadai como o protagonista. Nakadai vai embasar sua atuação em expressões carregadas, falas pesadas e uma forma arrastada de andar e agir em cada momento. Como o diretor caracteriza seu estilo de captar o filme utilizando um senso contemplativo do protagonista, Nakadai possui uma exposição limitada, apesar de dominar a tela. Também teremos a participação do lendário Toshirô Mifune em participações menores, mas bastante significantes para o desenrolar da história.

‘A Espada da Maldição’ é uma obra impecável. Cada fragmento de cena, quando decidimos analisar as partes, soam fantásticas por si só, com uma perfeita execução. No entanto, quando decidimos analisar o todo, o resultado é uma obra-prima do cinema japonês. Um filme que não faz concessões ou análises morais na hora de contemplar seu protagonista pouco aprazível. São duas horas das mais belas já filmadas do cinema oriental.

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