Crítica: ‘A Cena do Crime’(1986), de André Téchiné

Utilizando a proposta de trazer uma trama inocente e crua, André Téchiné falha nos pontos básicos para dar dinamicidade ao filme. ‘A Cena do Crime’ acaba se notabilizando como um drama francês superficial, com uma trama arrastada e uma direção tediosa. Em nenhum momento dos seus 90 minutos de duração o filme vai flertar com momentos produtivos, sempre ficando entre o insosso e o tolerável.

A trama nos conta a história de um assassinato com motivações realísticas que acaba desenrolando em um imenso emaranhado de conflitos. Nos personagens centrais da história teremos Thomas, um menino impetuoso, que está por cruzar a barreira da infância para a adolescência, sua mãe, Lili Ravenel, uma mulher marcada por relacionamentos problemáticos, e Martin, um bandido que está de passagem pela cidade onde o filme acontece. As histórias desses três personagens centrais e vários outros secundários vão ligar-se em algum momento do filme, formalizando conflitos de difícil resolução.

O filme sempre irá nutrir um ritmo cadenciado demais. Cada cena demora a chegar ao seu término, até as mais insignificantes dentro da história, tornando-as mais pesadas do que o necessário. Esse problema se estende até o momento em que passamos da introdução dos personagens ao foco principal da trama. Essa passagem é extremamente lenta, onde cada personagem, seja do eixo primário ou secundário, como salientado acima, possui uma quantidade de tempo em tela exacerbada.

Logo que adentramos ao foco do filme, a resolução do assassinato, veremos o quão superficial é a trama. Os conflitos emanados em cada cena são forçados, nada surge naturalmente. Os laços que acabam ligando os personagens surgem sempre com situações antecipadas pelo espectador. Sabemos o que vai acontecer momentos antes daquilo realmente tomar forma.

Essa inabilidade do roteiro em comandar cada situação do filme se estende até a reta final. Os últimos conflitos da trama sempre partem de um pressuposto arrastado. Em determinado ponto, veremos um romance entre dois personagens dar voltas sobre questões simples, fora do contexto principal, parando sempre na marca de partida. Além de arrastado, o filme se faz incômodo nos últimos minutos com a impossibilidade de dar um fim ao que está sendo contado.

Adentrando a parte técnica, a direção de André Téchiné se faz substancialmente fraca. O diretor decide por dar uma atmosfera muito seca ao filme, sempre com cenas esteticamente sujas e uma dinâmica travada. A exploração dos ambientes escolhidos para rodar o filme também deixa a desejar, se fazendo imprecisas e sempre dando um panorama limitado ao espectador de toda sua composição. A cinematografia do filme é chapada e sem profundidade. E, para completar, a quase ausência total de uma trilha sonora trabalha por deixar ainda mais desagradável a transição de uma cena para a outra.

O elenco é modesto, contando com atores, em sua maioria, limitados. No entanto, temos a grande Catherine Deneuve encabeçando o filme. Deneuve, apesar de seu talento incontestável, não destoa do resto do elenco, apresentando uma atuação mediana. A atriz acaba regendo sua atuação por movimentos e gestos calmos, evitando alterar muito essa constituição.

‘A Cena do Crime’ não vale o tempo investido. Seu roteiro raso e sem alternativas leva sempre o filme a um beco sem saída, tornando-o repetitivo. A direção, podendo ao menos atenuar os efeitos desse roteiro, também peca ao criar uma atmosfera muito crua ao filme. E, para completar, o elenco, que poderia encontrar um fio de esperança na presença de Catherine Deneuve, também não consegue adentrar com destreza em seus personagens.

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