Crítica: ‘Felizes Juntos’(1997), de Kar-Wai Wong

Seguindo a risca todos os elementos tradicionais de sua filmografia, Kar-Wai Wong nos presenteia com um filme envolvente sobre as desilusões amorosas de um pequeno espaço de tempo das vidas de um casal de namorados. Aqui, veremos as incongruências contidas na síntese do ser humano, o conceito de ciúmes é estudado, rotinas e hábitos são desmembrados e ainda há espaço para a obra tatear sobre a questão do tempo. E, como de praxe, o filme chamará a atenção de seu espectador pela fotografia belíssima, edição bem trabalhada e uma trilha sonora pontual.

O filme segue as vidas de um casal de namorados, oriundos de Hong Kong, que decide passar um tempo na Argentina. A trama do filme se concentrará inteiramente nas resoluções do dia a dia conturbado, os momentos de prazer e a inabilidade de viver juntos de dois indivíduos. Vale ressaltar que a trama em nenhum momento trata a figura do homossexualismo inserido no relacionamento dos homens para comandar o ritmo do filme.

Em sua reta inicial, o filme trabalhará por deixar claro ao seu espectador os caminhos que a trama pretender trilhar. Logo na cena inicial, somos inundados com uma cena intensa de sexo entre os dois personagens centrais, explicitando a carga erótica que seguiremos. O crucial aqui se faz pelo acerto em não resumir a obra simplesmente em cenas de cunho sexual, conseguindo deixar em foco toda a trama que permeia os personagens, evitando cometer erros que filmes como ‘Azul é a Cor Mais Quente’(2013) e ‘Último Tango em Paris’(1972), por exemplo, fizeram.

Conforme avançamos sobre a história, aprenderemos os diversos nuances que regem as personalidades dos dois homens. Os personagens servem de contraponto para os hábitos um do outro. Enquanto um exacerba seu lado mais instintivo, pautando-se sempre no prazer a qualquer custo, o outro é mais centrado nas atividades do cotidiano, quase sempre optando pela saída mais racional para determinados conflitos. E esse personagem mais centrado é o responsável por comandar a narrativa do filme, que exerce papel preponderante para a dinamicidade da história.

Assim como a grande parte da excelente filmografia do diretor, aqui a figura do narrador é a responsável por “martelar” os conteúdos expostos por cada cena. Esse narrador serve para evidenciar sentimentos, concluir cenas inacabadas, ponderar sobre os conflitos da vida, falar sobre o amor e ambientar o espectador no presente e passado dos indivíduos. E é neste ponto que a figura do tempo investigada.

O tempo é tido pelo filme como uma estrutura efêmera, de curta duração, que torna o indivíduo, os dois personagens em questão, em uma entidade empedernida, com rotinas e hábitos solidificados. O tempo do indivíduo no mundo é visto como uma sucessão de pequenos momentos significantes que ficarão “tatuados” em seu construto psicológico, tornando os eventos subsequentes uma tentativa frustrada de revivê-los.

Essa questão do tempo como algo rápido e claudicante é evidenciada pelos atos de um personagem, o homem regido por seus instintos, citado acima, já na reta final do filme, agindo por “travar” seu desenvolvimento pelos caminhos da vida, fazendo-o tentar recriar todos os elementos que outrora lhe fizeram feliz.

Os momentos mais substanciais para os personagens são aqueles mais conturbados. Os conflitos elevam o senso do aqui e agora, fazendo-os entrarem em um processo simbiótico inegociável. Esse processo de junção do aparato psíquico de dois indivíduos é amparado pela visão de ciúmes que o filme emprega, tornando a vida longe da presença do outro, para ambos os personagens, algo dolorido demais, exacerbando seus passos incongruentes pelo mundo.

Os trechos finais da obra também fazem uma homenagem ao país onde a trama concentra sua maior parte. A Argentina, adentrando em uma questão simbólica, serve como o ponto fora da curva para toda a camada insossa das vidas dos personagens quando separados. O país é a figura da comunhão por um pequeno fragmento de tempo pela qual os homens passam. O processo simbiótico, citado acima, entre eles se faz em virtude da figura do país sul-americano.

Caminhando para o campo da direção, teremos um trabalho extremamente dedicado e produtível do cineasta asiático. Kar-Wai Wong guia seu trabalho por trajetos já conhecidos, propiciando ao espectador uma direção simplesmente impecável. O diretor vai utilizar bastante os planos velozes, sempre se amparando em uma edição rápida, para dar dinamicidade ao que estamos assistindo. Tanto planos estáticos quanto móveis são utilizados por Wong, onde ambos trabalham por sempre nos inserir no âmago dos personagens, fazendo de suas dúvidas, conflitos e anseios partes integrantes do pensamento do espectador. E, por fim, outro recurso muito usado pelo diretor é o da já tradicional câmera lenta. Assim como a figura narrativa, essa câmera lenta atuará por dar o desfecho, no campo abstrato, para cada cena mais importante para a história.

A fotografia, comandada por Christopher Doyle, também é parte preponderante para a plena execução das ideias do diretor. Aqui, teremos enquadramentos que causam imersão, procurando ambientar o espectador no interior de cada ambiente explorado. Também teremos uma grande conjunção de tons extremamente fortes, que combinarão com o amarelado de algumas cenas, para impregnar a ideia de estarmos vendo uma atmosfera turbulenta e nostálgica. O filme também faz uso de uma variação de cenas coloridas e em preto e branco. O preto e branco é utilizado em uma quantidade de tempo menor e em pontos estratégicos do filme, servindo para emanar os únicos momentos de tranquilidade que os personagens acabam vivendo.

Vale destacar também a bela trilha sonora de Danny Chung, que traz em sua síntese uma variação entre duas culturas para guiar o filme. Essa trilha sonora, diferente do papel da fotografia e dos inúmeros planos diferentes utilizados pela direção, está alocada no filme de forma inconstante, aumentando e diminuindo seu ritmo conforme o momento dos personagens.

Já nos guiando para as atuações, ambos os atores responsáveis pelos papéis centrais entregam boas performances. No entanto, aqui o talento dos atores acaba sendo subjugado pela qualidade estética na concepção de cada cena. Não há espaço para eles se destacarem, a atmosfera do filme faz o trabalho por eles. Vale dizer que isso não representa um erro do filme.

Intenso, significante e impecável em sua concepção, ‘Felizes Juntos’ é um filme que atua em comunhão com diversos conceitos e fases da vida humana. Kar-Wai Wong, seu diretor e roteirista, não entrega nada além do que o espectador está acostumado em sua carreira, prezando em cada plano utilizado por uma ordem inegociável de fatores distintos.

One Comment on “Crítica: ‘Felizes Juntos’(1997), de Kar-Wai Wong”

  1. Critica excelente e completa. Revi ontem o filme, pela terceira vez, e sempre me encanto com a direção, atuação, fotografia, enfim, tudo no filme é de um magnetismo surpreendente.
    Deixo aqui apenas uma ressalva ao texto. A relação dos protagonistas é tratada como “homossexualismo”. Esse termo está em desuso e equipara a relação amorosa à doença. O termo adequado seria homossexualidade.
    No mais, parabéns pela análise.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *