Crítica: ‘A Mosca’(1986), de David Cronenberg

Em um dos filmes mais impactantes de sua carreira, David Cronenberg nos entrega uma obra que trabalha por incomodar o espectador. ‘A Mosca’ é uma obra cheia de substância, extremamente criativa e que rege sua atmosfera em um ritmo crescente de tensão. O filme ainda irá transpor toda uma degeneração psicológica e física de seu protagonista, caminhará sobre os anseios humanos e seus limites e questionará os princípios éticos tidos como básicos em uma sociedade tradicional. Como se tudo isso não fosse o bastante, o filme ainda entrega uma parte técnica, como maquiagem e efeitos especiais, simplesmente impecável.

A trama do filme trabalha sobre a vida de um cientista extremamente talentoso que nutre uma vontade inexorável em obter um feito sem igual em sua área. Egocêntrico e excêntrico, o homem ainda conhece a figura de uma jornalista interessada em seus objetivos, desenvolvendo com esta um romance. Ganharemos força na trama quando um de seus experimentos dá errado, transformando toda a realidade que o homem tinha como definitiva.

O início do filme, como em algumas obras do diretor, deixa o espectador meio por fora dos elementos da trama. O passado dos personagens centrais é completamente suprimido, mostrando indivíduos se movendo sem nenhum tipo de predição por parte do público. Toda a natureza do porque desses indivíduos agirem da forma que o fazem é mantida em segredo por essa parte inicial.

O avançar pela trama, mesmo o filme possuindo apenas 96 minutos de duração, é simples e cadenciado, sem se fazer apressado em nenhum momento. Se o passado dos personagens foi suprimido antes, o mesmo não acontece com toda a gama de comportamentos e suas resoluções que os personagens distribuem ao decorrer da história. Passamos a entender perfeitamente como cada item da trama pensa e projetamos, até mesmo, alguns passos que eles podem dar.

Conforme a trama vai ganhando sua dinamicidade, teremos evidenciado todo o processo de degeneração ao qual o personagem principal é submetido. Esse processo não se faz unicamente em virtude de seu aparato biológico corrompido, mas, também, pela figura da loucura que adentra a sua psique quando este acaba se deparando com o fracasso. E, ao adentrar a reta final da obra, somos inundados com o fator que mais dá visibilidade para tudo que foi projetado.

Adentraremos em um mundo onde o grotesco dá as ordens. Veremos uma grande variedade de cenas desconfortáveis para o espectador, que trabalham por “tatuar” toda a proposta que o filme trilhou calmamente durante cada cena. Isso sem jamais perder o foco principal, que é contar sua história. Tudo caminha em um completo estado simbiótico para os desnivelamentos finais de cada elemento, seja da instância dos personagens ou, até mesmo, da parte estética do filme. E tudo isso jamais seria possível sem a grande conjunção de talentos que se uniram para fazer este filme possível.

No âmbito da direção, David Cronenberg conduz o filme da forma que se acostumou durante toda a sua filmografia. O diretor não necessita de muitos cenários para fazer a história ganhar peso, se valendo, praticamente, de dois únicos locais para tocar a história, assim como o fez em ‘Os Filhos do Medo’(1979). Também teremos uma grande variedade de cenas que aderem ao “gore” e, como dito acima, assumem a função de incomodar, lembrando trabalhos do diretor a frente de filmes como ‘Scanners – Sua Mente Pode Destruir’(1981) e Videodrome(1983).

Essas cenas que fazem o filme se destacar se devem ao trabalho espetacular dos departamentos de maquiagem e efeitos especiais. A economia na questão de locais e cenários passa longe de chegar à área dos efeitos e maquiagem. Tudo aqui é bem feito, emanando um senso de realidade surreal. Exacerbadas, essas cenas ganham mais substância quando juntamos toda a trajetória dos personagens até os momentos preponderantes para a obra. Diferente de filmes que também se destacaram neste setor em especial, ‘A Mosca’ utiliza esses elementos para propiciar algo a mais para a história, e, não, para subjugá-la.

Já no campo nas atuações, veremos o filme debruçar-se sobre três componentes centrais. Teremos John Getz, como o componente menos efetivo para a trama, entregando uma atuação competente, sabendo pontuar com talento os momentos onde seu personagem é requisitado. No papel da jornalista atrás de um furo, teremos a ótima Geena Davis, guiando sua atuação com uma sexualidade exacerbada e dispensando intensidade nas cenas mais impactantes. 

O trabalho de dar toda a dinamicidade à trama é de responsabilidade da ótima atuação da atriz. No entanto, o destaque, claro, vai para Jeff Goldblum como o personagem principal do cientista. Goldblum nos propicia uma atuação sem igual, iniciando o filme calmamente, empregando toda uma estranha doçura no modo de ser do personagem e, conforme avançamos, começando a empregar uma intensidade em cada comportamento, olhar e gesto do errático cientista. Uma das melhores interpretações da carreira desse ótimo ator.

Vale também pontuar o sempre ótimo trabalho da trilha sonora. Comandada pelo genial Howard Shore, a trilha sonora é completamente pautada no que a história e direção oferecem, aumentando e diminuindo sua força conforme o filme necessita.

Impecável do começo ao fim, ‘A Mosca’ é uma obra para ser revisitada diversas vezes. Um filme que, mesmo com as inúmeras cenas fortes, se move de maneira suave, hipnotizando o espectador, fazendo com que este se sinta parte integrante da história. Um dos melhores filmes da carreira de David Cronenberg e, talvez, sua última obra que se ampara completamente no gênero do horror.

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