Crítica: ‘Dark Horse’(2011), de Todd Solondz

No sétimo filme de sua carreira, Todd Solondz nos apresenta uma obra mais descompromissada, cheia de exageros e pontos sem sentido, abordando a vida errática de um indivíduo imaturo. ‘Dark Horse’ ainda traz componentes tradicionais da filmografia do diretor, como a obsessão por personagens estranhos ou fracassados, o lado trágico da comédia e a abordagem simbólica para determinados encaminhamentos da história.

A trama, também escrita por Solondz, segue os passos de Abe, um homem na faixa dos trinta anos de idade, completamente imaturo, que vive na casa dos pais e possui um emprego (que não possui a menor capacidade de executar) na empresa de seu pai. A história ganha sua dinâmica quando o homem conhece uma mulher, na mesma faixa etária que ele, nutrindo um ar depressivo e apático em seus atos, desenvolvendo um relacionamento improvável com ela.

O início do filme serve para alocar o espectador na atmosfera que a obra pretende seguir, expondo uma trilha sonora regida por músicas mais adolescentes, dando um panorama do que compreende a personalidade do protagonista. E esse início trabalha por deixar evidente todas as características da personalidade de Abe.

Abe, sempre trajando roupas espalhafatosas, possuindo um carro chamativo, fisicamente fora de forma e nutrindo uma maneira nada aprazível de se comunicar com outras pessoas, acaba mostrando uma ingenuidade em seus atos. O homem comporta-se como um adolescente mimado, tendo sempre que ser tratado com extrema cautela por seus pais, caso contrário acaba iniciando pequenos surtos. Vale citar que tudo é regido por um senso assertivo de comédia.

Esse senso de comédia, que propicia ao espectador uma maior absorção das situações emanadas de cada cena, torna o filme leve. Não há aqui espaço para fragmentos verossímeis de história, tudo é guiado levando em conta um afrouxamento crítico de seu público. As construções de comédia são ousadas, desafiam padrões morais do espectador, sem, no entanto, cair em armadilhas comuns ao gênero, como a exposição demasiada de piadas repetidas ou cenas grotescas.

Conforme avançamos sobre a trama, o filme começa a se aprofundar cada vez mais nas desventuras do personagem. O desajuste social do personagem, expondo sempre uma forma errática de se comportar em suas maneiras de reger um intercâmbio social, é tratado mais pelo senso do ridículo, com situações cada vez mais pautadas na falta de sentido, aderindo a um campo simbólico alheio a trama, onde o homem tem conversas catárticas imaginárias com a assistente de seu pai.

Esse uso de situações e cenas exacerbadas acaba perdendo seu peso e tornando-se maçante em alguns pontos da reta final do filme. Reta final que adere a lei da causa e efeito, tornando todos os atos que o personagem dispensou em sua vida contra o aparato social e familiar esferas que voltarão para assombrá-lo. O personagem passa por um pequeno, no entanto, doloroso calvário, onde o filme brincará com o aspecto da tragédia na comédia.

Adentrando ao campo da direção, veremos Todd Solondz executar um trabalho regular, guiando-se completamente por elementos concebidos durante sua carreira. Solondz brincará com a moral social, fazendo com que cada cena entregue algum fator de questionamento para o espectador. O diretor, diferente de filmes anteriores, como ‘Felicidade’(1998) ou ‘A Vida Durante a Guerra’(2009), despreza aqui construções mais acuradas de cenas, pautando-se por enquadramentos descuidados e pouco trabalhados, algo que não chega a atrapalhar a experiência de assistir ao filme.

O elenco, talvez esfera mais produtiva do filme, possui nomes como Selma BlairMia Farrow e Christopher Walken. Os três atuam como componentes secundários para o desenvolvimento da história, mas acabam tornando cada cena mais aprazível e palatável ao espectador, valendo o destaque para a construção estética feita para o personagem de Walken, com um penteado impagável. Comandando o filme temos Jordan Gelber. Gelber, assim como o resto do elenco, possui uma interpretação positiva, não fazendo nenhuma concessão na hora de se expor em um personagem com comportamentos extremos e que beiram o ridículo.

Apesar de não se alocar como uma das grandes obras de Todd Solondz, ‘Dark Horse’ consegue chegar a sua proposta central de trazer uma trama leve e divertida ao público. Um filme que não é ausente de erros, mas que entrega o prometido. A sua curta duração (apenas 86 minutos) é outro fator que deixa o filme mais dinâmico e que diminui eventuais inconformidades da história.

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