Crítica: ‘Lolita’(1997), de Adrian Lyne

Seguindo uma atmosfera cadenciada para guiar sua obra, Adrian Lyne traz aqui um filme ousado sobre a síntese da sexualidade humana e suas incoerências. ‘Lolita’ traz em sua substância inúmeros conceitos, como a noção de passado como uma estrutura enraizada no homem, a flexibilidade da moralidade e a nocividade da obsessão, sempre prezando por expor como a vida humana e o acaso caminham juntos.

Baseado no romance de Vladimir Nabokov, a trama se concentra em um homem de meia-idade que casa-se com a mulher de onde alugara a casa, somente para poder ficar mais perto de sua filha adolescente, da qual desenvolvera uma obsessão inexorável. O filme passará os seus 137 minutos de duração investigando os diversos nuances surgidos nas vidas desses diferentes personagens.

O início do filme, apesar de suprimir alguns eventos das vidas dos personagens que poderiam ser levantados, adere a um ritmo bem lento para guiar sua trama. Veremos alguns fragmentos da infância e adolescência do personagem central, expondo seus prazeres e ambições, e já pularemos para sua chegada a casa onde pretendia morar, vindo a conhecer a mulher, dona da casa, chamada Charlotte, e sua filha Dolores, uma garota no início da fase da adolescência.

Aqueles fragmentos expostos sobre a juventude do personagem são extremamente importantes para o prosseguimento da história. Esse passado, outrora prazeroso, com as exacerbações das alegrias de um indivíduo, atua como uma estrutura solidificada na construção psíquica do personagem. O homem aparenta, antes de conhecer e substanciar sua paixão pela adolescente, viver às sombras dessas experiências prazerosas de sua juventude. E encontra-se neste ponto o encaixe da figura da adolescente no ressurgimento de empolgação pela vida por parte do personagem.

Dolores acaba fazendo o homem novamente sentir-se vivo, fazendo-o poder vislumbrar o brilho de felicidade que tivera em um passado já distante. Em vista dessa oportunidade, o homem acaba colocando para fora um lado mais instintual, sem se importar com as consequências, vindo a desenvolver uma relação com a figura da adolescente inocente. E a figura que poderia atrapalhar esse relacionamento se constitui pela personagem de Charlotte.

Parecendo ser ainda mais ingênua que sua filha, Charlotte se deixa levar por uma sociedade machista, onde as mulheres sem um parceiro fixo eram vistas como uma camada inferior do aparato social, caindo no jogo de enganações propiciadas pelo homem. A mulher, é válido salientar, traz sempre uma sensação de repulsa para os outros integrantes da residência (o homem e sua filha), se fazendo, em determinado momento, ausente dos desnivelamentos ocorridos sob seu teto. E, para tirar o objeto que impede o relacionamento do homem com a adolescente, o acaso se faz mais atuante do que nunca na obra, evidenciando a beleza de uma tragédia. No entanto, a ausência de Charlotte para atrapalhar, acaba possuindo uma vertente que corrompe o homem, fazendo-o sucumbir em meio às suas pulsões mais primitivas.

construção de moralidade intrínseca ao homem, com normas e deveres impostos durante toda sua vida para um bom convívio com seu meio, acaba nem mesmo surgindo como ponto de questionamento para ele. Em virtude da completa devoção a figura da jovem, o personagem simplesmente se esquece dessas construções. Em sua cabeça, naquele momento, é absolutamente normal manter uma relação amorosa com uma adolescente, mesmo que ele saiba que o âmbito social não possa tomar ciência disso.

Conforme avançamos, começamos a encontrar uma maior dinamicidade no desenrolar das situações da trama. Agora concentrado em apenas dois personagens, o filme se preocupa em investigar a figura da degeneração psicológica inserida em ambos. Envoltos, agora, em um estado simbiótico, Dolores e o homem adentram a uma rotina autodestrutiva. E, neste ponto, temos a característica central do filme, mostrando como a obsessão se engendra no personagem central.

Seu passado empedernido, cheio de substância, e sua fase adulta insossa, fazem do agora, junto à Dolores, o maior “espasmo” de felicidade que ele cortejara em seus momentos na terra. Essa possibilidade deixa o personagem completamente obcecado pela adolescente, vindo a corromper a essência da garota em prol da satisfação de suas vontades. Essa completa obsessão, claro, acarreta em danos para todas as partes envolvidas.

A reta final explicita o custo de cada atitude tomada. O homem e a adolescente pagam preços altos. O arrependimento atua unicamente por parte da adolescente, que vê como sua ingenuidade lhe condenara. O personagem central, no entanto, jamais parece arrepender-se por suas atitudes, desejando unicamente poder ter tirado mais tempo na companhia da jovem.

Adentrando ao campo da direção, teremos um trabalho positivo de Adrian Lyne, apesar de perder o encanto concebido no início. Lyne opta, na reta inicial do filme, por trazer planos bem trabalhados, expondo a carga dramática inserida em cada consequência do roteiro. No entanto, conforme ganhamos dinamicidade, Lyne parece descuidar dessa tentativa de encantar seu espectador, entregando cenas ainda bem construídas, mas que não emitem a mesma qualidade do começo. Outro ponto positivo para a direção de Lyne se faz por ele aproveitar bem a figura narrativa proposta pelo roteiro (o próprio personagem central apresenta a história), sabendo dar a ela papel preponderante para o sucesso do filme.

A trilha sonora, também valendo o destaque, segue o bom trabalho da direção, inserindo-se nas cenas mais intensas, servindo para dar um panorama geral sobre a exacerbação contida em cada personagem, em especial no central. Concebida por Ennio Morricone, essa trilha sonora é um dos pontos altos da obra.

O elenco do filme, composto em sua camada principal por Jeremy IronsDominique Swain e Melanie Griffith, consegue propiciar ao espectador atuações competentes. Griffith, no papel de Charlotte, emana um senso de irritação ao espectador, fazendo-nos repensar sobre a reprovação sobre o papel de enojamento que a mulher causa a sua volta. Swain, no papel da adolescente, exibe uma atuação mais física e pautada na camada provocadora que o filme emite. Mas o destaque, é claro, vai para Jeremy Irons. Irons, irretocável como sempre, pondera sua atuação no senso básico que consumou sua filmografia, com um ar de tranquilidade emanando de seus gestos e olhares, fazendo de suas restritas explosões em cena mais pesadas aos olhos do espectador.

‘Lolita’ não é uma obra-prima, está muito longe disso, mas acaba se fazendo um filme interessante sobre as pulsões primitivas do ser humano e a impossibilidade de controlá-las. Um filme que traz nomes consagrados do cinema, todos unidos e em seu melhor para propiciar ao espectador a melhor experiência.

One Comment on “Crítica: ‘Lolita’(1997), de Adrian Lyne”

  1. Ótima crítica. Realmente Lyne não conseguiu manter o filme na mesma linha. Com um início maravilhoso e intrigante sobre a vida do adolescente apaixonado cai depois que Humbert chena na casa de Charlotte.
    É a história é o que faz com que o espectador assista o filme até o final, por questões obvias.
    A trilha sonora, lindíssima. Os atores estão perfeitos nos papéis.
    Foi por esse filme que me apaixonei por Jeremy Irons <3.
    Sinceramente, sobre Lyne especificamente. O homem sabe escolher boas histórias. Sempre inicia os filmes muito bem, mas tem um declínio.

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