Crítica: ‘O Divo’(2008), de Paolo Sorrentino

Adentrando ao campo político exacerbado da Itália da segunda parte do século XX, Paolo Sorrentino apresenta um filme sobre os meandros do poder e, como o próprio título original aponta, a espetacular vida de um personagem. Irretocável do começo ao fim, ‘O Divo’ é uma obra sobre a essência errática do ser humano no mundo, elencando conceitos como a onipotência intrínseca a determinados indivíduos e o campo político como instância suja do mundo. O filme sempre apresentará sua trama e seus desnivelamentos fazendo um contraponto com a figura da religião.

O filme segue alguns fragmentos do reinado de poder de Giulio Andreotti no meio político efervescente italiano do século XX. Seus comportamentos e rotinas são destrinchados, sua forma dura de agir contra seus adversários é explorada e seus relacionamentos interpessoais controlados são estudados com o intuito de entregar ao espectador um panorama geral do personagem. A obra passará os seus 110 minutos de duração mostrando a jornada de Giulio em meio à vida, desde o auge de seu poder na Itália até sua derrocada inexorável.

A reta inicial do filme, em especial sua cena introdutória magistral, trabalha por explicitar como o personagem central nutre um senso de onipotência com seu meio social, escolhendo os caminhos de diversos indivíduos ao seu redor. Aqui, pessoas que representam alguma forma de perigo ao homem acabam tendo suas vidas ceifadas.

Em contraponto com as exacerbações cometidas por Andreotti, o filme explora o lado religioso do homem. Todas as manifestações levantadas, seja por conversas políticas ou pessoais, sempre o personagem fará o uso da religião, demonstrando como essa figura é presente em sua história e acaba, consciente ou inconscientemente, influenciando em determinados comportamentos. O personagem parece não tomar ciência da diferenciação entre suas tomadas de decisões e a proposta da religião que segue.

No entanto, os detalhes da vida de Andreotti não são a camada que propicia substância ao filme. Aqui, o elemento que dá dinamicidade à obra e faz com que esta jamais fique insossa é a atmosfera espetacular que Sorrentino nos propõe. Todos os desnivelamentos da trama são regidos com intensidade, sempre se pautando por uma trilha sonora bastante ativa, transpondo a importância de cada trecho ultrapassado e nos fazendo ansiar pelo fragmento posterior. Essa escolha ousada para o filme descaracteriza completamente o gênero escolhido e dá a este um brilho necessário pouco utilizado no cinema.

Concentrado no gênero biográfico, pendendo para o subgênero político, o filme quebra completamente com o que é feito tradicionalmente. Geralmente, em boas produções do gênero, para não cair na desatenção do público, como em ‘JFK’(1991), são utilizados elementos da edição para dar uma boa dinâmica à obra, evitando que esta fique maçante. Aqui, no entanto, esse uso se faz pequeno, quase invisível. ‘O Divo’ se aproveita unicamente de sua atmosfera para cadenciar sua trama e, somente com isto, faz com que o filme fique leve ao seu espectador. Todos os nuances políticos (e eles são vários) expostos na trama jamais ficam repetitivos, fazendo quem assiste querer saber no que aquilo vai resultar.

Conforme avançamos para a reta final, o filme ainda entrega outro elemento novo, quebrando com sua linha temporal e “passeando” sobre passado e presente de forma alternada. Essa desistência de uma história amparada corretamente em uma linha cronológica exata serve para evidenciar os momentos da trama onde o personagem central perde seu poder de outrora, vindo a se deparar com inquietações psicológicas.

A direção do italiano Paolo Sorrentino é o ponto que diferencia a obra. Além dos já citados trabalhos para a criação de atmosfera para o filme, Sorrentino ainda procura trazer sempre as melhores cenas, optando por planos bem trabalhados (com apoio da bela fotografia de Luca Bigazzi) que “sugam” o espectador para dentro do filme, fazendo uso de uma câmera que procura explorar cada meandro dos cenários, personagens e objetos disponíveis.

No elenco, necessitaremos de apenas um nome para dar todo o tom do filme. Toni Servillo entrega uma interpretação magistral no papel de Giulio Andreotti. Servillo, completamente irreconhecível, transpõe ao público uma atuação fria, quase ausente de emoções durante todo o filme, se pautando somente por alguns gestos simples, porém cheios de substância. O ator só quebra com a frieza de seu personagem quando é necessário pelo roteiro, assustando o espectador por sua intensidade. Melhor atuação da carreira do brilhante ator.

‘O Divo’ consegue contar em menos de duas horas uma história densa e cheia de nuances sobre um fragmento da história italiana do século XX. Um filme dinâmico, com uma direção fabulosa, uma trilha sonora pulsante e uma atuação central competente que certamente merece uma atenção especial.

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