Crítica: ‘O Show Deve Continuar’(1979), de Bob Fosse

No seu penúltimo trabalho à frente da direção, Bob Fosse nos traz um filme impecável. Um musical que foge ao habitual, empregando suas forças em construções tangíveis para cada resolução de cena. ‘O Show Deve Continuar’ ainda mostra a deterioração física de um personagem consumido pelo seu prazer pela vida. Obsessão, falta de limites e ciúmes são apenas alguns dos elementos que a obra investiga, sempre se pautando por uma variação entre o campo do real e simbólico.

O filme destrincha a vida de Joe Gideon, um famoso coreógrafo e diretor de cinema, que, após assinar um contrato para a produção de uma nova peça musical, encontra um emaranhado de problemas, pessoais e profissionais, quando sua saúde física começa a se deteriorar. A trama ainda mostrará todos os excessos de Gideon em sua rotina diária, consumindo sempre doses altas de remédios e cigarros para manter o pique e mantendo várias relações com mulheres diferentes. Como se tudo isso não fosse o bastante, o homem ainda tem que lidar com sua filha adolescente e sua ex-mulher em seu dia a dia.

A reta inicial do filme servirá para ambientar o espectador em toda a agitação do dia a dia do personagem, mostrando sua inerente obsessão pela figura de seu trabalho, sua admiração pelo sexo feminino e os nuances pessoais de sua relação com a filha, prestes a adentrar a adolescência, e sua ex-mulher, que serve como ponto de controle para ele. E é na figura dessa agitação que o filme começa a apresentar os exageros de Gideon em relação ao meio social.

Gideon não quer apenas ter a possibilidade de frequentar diversos campos, como trabalho, mulher e a paternidade, ele quer sempre o máximo que essas instâncias podem lhe oferecer. Essa “sede” pelos prazeres mundanos faz o homem encontrar uma limitação física, que, no entanto, é facilmente corrompida com algumas doses de remédios que mascaram seus problemas. Problemas que são expostos ao próprio personagem pelo campo simbólico.

Em conversas permeadas por sinceridade, Gideon conta para uma jovem e atraente mulher suas histórias, seus prazeres e desprazeres, sempre demonstrando total conhecimento de suas atitudes erráticas. Tudo, vale ressaltar, amparado em uma espécie de campo onírico. A mulher com quem o personagem compartilha sua vida, expondo fisicamente características que ele sempre adorou, é uma representação da própria morte. O filme fará sempre esse contraponto entre as atitudes do homem em sua rotina e suas conversas aleatórias com essa figura da morte.

Conforme avançamos sobre a trama, veremos como Gideon opta por queimar sua vela nas duas pontas, como dizia o verso da poetisa Edna St Vincent Millay, não se preocupando com a longevidade de sua vida, mas, sim, por sua intensidade. Logo, o homem começa a enfrentar as consequências de uma vida levada sempre no extremo. O filme começa a investigar toda a degeneração de seu aparato físico e a recusa do personagem em diminuir o ritmo.

Cada etapa da decadência de Gideon é calmamente mostrada. Apesar dos apelos de amigos, familiares e colegas de trabalho, o homem recusa a opção de uma vida guiada pela mediocridade. E, já na reta final da obra, sua queda é tão intensa e brilhante quanto cada dia de sua vida. Teremos uma versão alternativa da música ‘Bye Bye Love’ (escrita por Felice e Boudleaux Bryant e eternizada com a versão de ‘The Everly Brothers’), sincronizando um dos momentos em musicais mais célebres da história do cinema.

Adentrando ao campo da direção, veremos um trabalho primoroso de Bob Fosse. Fosse escolhe sempre pela cautela ao captar cada cena, preservando cada detalhe que venha a ser importante para o espectador entender o que rege o personagem e o mundo ao seu redor. Ponto que revela todo esse cuidado é a repetição intermitente, sempre com ângulos difusos em cada fragmento, mostrando o processo de Gideon para “ganhar” a motivação para sua rotina, e, assim como outros grandes diretores costumam fazer, como, por exemplo, Michael Haneke, Quentin Tarantino e Martin Scorsese, Fosse dá vida para objetos da composição de cenário, merecendo, alguns deles, planos focados completamente em si. Outro fator positivo da direção é saber tatear entre o campo real e simbólico, jamais trazendo confusão e ambientando o espectador em cada alteração.

O elenco do filme também emite um show à parte. Temos Jessica Lange, Leland Palmer e Ann Reinking nos papéis centrais das mulheres que afetam a vida de Gideon. Palmer e Reinking embasam suas interpretações mais em construções propriamente físicas, já que ambas passam algum tempo fazendo performances em tela. Lange, no entanto, tem uma personagem (a representação da morte) mais estática, se guiando sempre por uma simplicidade em seus gestos e falas, conforme o roteiro determina. No papel de protagonista, vamos ter o fantástico Roy Scheider. Scheider nos entrega aqui a melhor atuação de sua carreira, regendo seu tempo em tela por uma intensidade intrínseca à sua interpretação.

‘O Show Deve Continuar’, sem dúvidas, se aloca entre os maiores musicais já feitos no cinema. Um filme que sabe dar substância aos personagens investigados sem se fazer pesado demais em seus desnivelamentos. São 123 minutos guiados por um ritmo único e extremamente prazeroso, sem jamais perder em dinamicidade.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *