Crítica: ‘Scanners – Sua Mente Pode Destruir’(1981), de David Cronenberg

Sem se preocupar muito com a densidade de sua trama, David Cronenberg nos apresenta um terror direto, violento, bastante movimentado e com uma dose regular de gore. ‘Scanners’, é muito bom que se diga, passa longe de ser um bom filme, mas acaba se encaixando perfeitamente no que o diretor pensou em entregar a seu público. Seus 103 minutos de duração, apesar das cenas ágeis, passam longe de serem efêmeros, dando a chance do espectador internalizar todos os seus nuances, sejam eles positivos ou negativos.

A trama vai contar a história de um grupo de pessoas dotadas de poderes especiais, chamadas de “scanners”, capazes de provocar danos irreparáveis no meio onde vivem, bem como a si mesmas. A história ganhará corpo quando um grupo de cientistas descobre que um “scanner” saiu de controle e começou uma onda de assassinatos. Assim, tendo em vista o poder fora do comum desse homem, os cientistas se veem com a única opção de recrutar outro “scanner”, não menos perturbado, para tentar impedir a onda de destruição causada pelo outro indivíduo.

O início da história é frenético, não dando a oportunidade do espectador propor uma ideia sobre o que está acontecendo em tela. Os personagens não são apresentados de uma forma tradicional, somos inundados com as atitudes erráticas e destrutivas daquelas pessoas sem nem ao menos entender o porquê daquilo estar acontecendo. Perseguições de carros, acidentes e pessoas explodindo são introduzidas sem conter o mínimo de explicação.

No entanto, essa falta de informação do começo do filme não se apresenta apenas com pontos negativos. A agilidade com que caminhamos de cena em cena nos 30 minutos iniciais traz leveza ao filme e torna toda a falta de explicação apenas um detalhe para tudo o que acontece. Porém, como era de se esperar, em algum momento, o filme tem que informar o espectador dos detalhes de sua trama. E é aí que a obra se perde completamente.

Os desmembramentos da história são todos forçados. Não conseguimos vislumbrar uma simples tomada de decisão do roteiro (escrito por David Cronenberg) em toda a segunda parte do filme que ocorra de uma forma verossímil. Todas as informações parecem terem sido feitas de última hora. O filme jamais parece ter certeza para onde caminhar após cada detalhe da trama apresentado ao espectador.

Em sua reta final, o filme começa a se revelar maçante. Toda a boa produção das cenas de ação e terror acaba ficando repetitiva. Aquela agilidade inicial do filme se perde em um emaranhado de informações similares e desconexas, fazendo com que o espectador perca o interesse nos rumos dos personagens centrais.

direção de David Cronenberg é o que salva parte do filme. Mesmo com recursos limitados e um elenco fraco, o diretor consegue ousar e construir cenas fantásticas. As perseguições com automóveis são construídas de uma forma crua, com uma câmera quase amadora, que consegue dar substância ao que estamos vendo, sempre se valendo também da figura da edição veloz. Já nas cenas onde o “gore” se faz presente, o diretor também acerta, nos propiciando cenas tão assustadoras quanto as presentes em ‘Os Filhos do Medo’(1979), seu filme anterior.

O elenco do filme não segue o mesmo padrão de excelência de Cronenberg na direção, fazendo-se fraco. As atuações são muito exageradas e ajudam a completar o tom inverossímil proposto pelo roteiro. A exceção se faz pelo ótimo Michael Ironside como o vilão do filme. Ironside emana uma maldade quase inerente, cada plano destacando suas expressões revelam ao espectador um personagem completamente perturbado e cruel. Talvez um dos poucos equívocos da direção seja o de não ter aproveitado mais da figura do ator.

‘Scanners’ acaba valendo mais a pena ser assistido para ver a evolução de David Cronenberg em sua filmografia fenomenal, do que propriamente pelo filme em si. Mesmo contendo pontos positivos, como a direção, seus 30 minutos iniciais e a atuação de Michale ironside, o filme jamais honra seu compromisso de oferecer alguma forma de satisfação ao espectador que passou 103 minutos assistindo à obra.

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