Crítica: ‘Ladrão de Casaca’(1955), de Alfred Hitchcock

Expondo uma trama bem amarrada, com desnivelamentos sempre pautados na tentativa de surpreender o espectador, Alfred Hitchcock nos brinda com um filme impecável. ‘Ladrão de Casaca’ ainda irá apresentar atuações soberbas de seus protagonistas e uma atmosfera aprazível para reger sua história.

Baseada no romance de David Dodge, a trama do filme se concentra na eclosão de alguns furtos de joias e a tentativa de John Robie, um famoso antigo ladrão, de encontrar os responsáveis, a fim de evitar que lhe outorguem a autoria dos crimes. A história ganhará sua substância quando John acaba se envolvendo em um jogo de enganações com uma jovem atraente e, aparentemente, rica.

O começo do filme é bastante dinâmico, com cenas ágeis de ação intermitente, fazendo junções rápidas entre o “modus operandi” dos furtos e a tentativa do protagonista, em outra ponta, de escapar das autoridades que desejam lhe prender. Essas cenas mais frenéticas trabalham por emanar um senso de dúvida sobre os nuances da trama, deixando o espectador alheio às motivações do porquê de tudo aquilo estar acontecendo.

Essa decisão inicial de entregar muita ação com pouco conteúdo de história é acertada. Os detalhes que regem a trama são entregues ao espectador de forma dosada, deixando alguns fragmentos sob as sombras, a fim de trazer mais mistério acerca dos rumos dos personagens centrais. E é aqui que o filme subverte seu caminho, passando a adentrar ao campo do mistério.

Conforme a trama começa a entregar seus caminhos, mostrando alguns espectros das personalidades dos personagens centrais e do grande compêndio de elementos que compreende a história, as coisas começam a se encaixar. Começamos a vislumbrar possíveis caminhos para os direcionamentos da história. Todos os rumos da trama acabam fugindo para uma abordagem mais investigativa, onde todos passam a ser, sempre alternando papéis, vítimas e suspeitos.

Esse ar investigativo escolhido pelo filme tira completamente a carga dinâmica disposta em outrora, elevando toda uma calma para dissolução de cada cena, sempre optando por diálogos longos e nem sempre cruciais para o bom entendimento da história. Essa decisão é necessária, dando a possibilidade do roteiro trabalhar com várias possibilidades de resoluções para determinados acontecimentos, trazendo um jogo de enganações contínuo.

A reta final do filme acaba trazendo conclusões para os mistérios da trama que acabam surpreendendo o espectador. Somos condicionados a imputar a culpa a determinados personagens que acabam não sendo os responsáveis. Este simples fato de conseguir guiar o público para um caminho errado, tudo construído de forma verossímil, por si só, já consegue atingir a proposta que Alfred Hitchcock sempre tem em seus filmes.

Hitchcock segue aqui o padrão básico do concebido em toda sua filmografia, trabalhando com os mesmos conceitos, elementos e construções de cenas de suas melhores obras. Aqui, no entanto, o diretor também, como exposto acima, escolhe por alternar entre gêneros em partes distintas do filme, indo da aventura para o mistério conforme a dinâmica proposta necessita. Porém, o que diferencia Hitchcock dos demais é a sua sede por sempre trazer uma grande conjunção diversa de planos para captar cenários, personagens e objetos, resultando em um grande emaranhado extremamente qualitativo de cenas.

Outro ponto que faz com que este filme esteja alocado entre os grandes trabalhos do diretor é a escolha perfeita de atores para comandar a trama. Aqui, temos Cary Grant e Grace Kelly comandando o filme. Ambos conseguem trazer um brilho único para cada cena, em especial os planos em que os dois estão juntos, tornando tudo mais agradável e digno de contemplação para o público.

Ladrão de Casaca’ é um filme especial da década de 1950. Tudo aqui funciona. Não há um único elemento do filme que não possua seu impacto positivo quando optamos por olhar o todo. Cada decisão, a alternância de gêneros e ritmos e o elenco magistral fazem desta obra uma verdadeira obra-prima do cinema de Alfred Hitchcock.

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