Crítica: ‘Moonlight – Sob a Luz do Luar’(2016), de Barry Jenkins

Explorando diversos períodos da vida de um indivíduo, ‘Moonlight’ destrincha valores sociais erráticos, o preconceito impregnado em uma sociedade norte-americana e os caminhos trilhados pela espécie humana em meio a um mundo exacerbado. O filme ainda nos traz uma direção irretocável de Barry Jenkins, um roteiro bem trabalhado, uma fotografia positiva e ótimas atuações de seu eixo central.

A trama adentra em três períodos distintos da vida de Chiron, mostrando desde o final de sua infância até o início de sua vida adulta, expondo os nuances de sua jornada, seus prazeres e suas dores. Os 111 minutos de duração do filme vão trabalhar na construção do personagem, fazendo sempre o contraponto com o âmbito social que acaba servindo para atrapalhar o pleno desenvolvimento do indivíduo.

Os desnivelamentos iniciais do filme são muito cadenciados, focando mais na exposição da beleza nas construções das cenas do que, propriamente, na história em si. Aqui, tudo é concebido de forma bastante trabalhada. Cada plano tem como foco fazer com que o espectador se sinta completamente atraído pela atmosfera do filme.

Conforme avançamos pela história, o filme começa a entregar os caminhos da trama, mostrando as características da personalidade do personagem central, sem que, no entanto, o todo seja subjugado, trabalhando por trazer, também, como o ambiente ao seu redor é constituído. Logo, com essas pequenas introduções de maior substância para a história, é possível verificar como o ambiente acaba atuando de maneira corrosiva ao indivíduo (falando de uma maneira geral, não apenas no personagem). Preconceito, drogas e o espírito social (bem como suas construções através do tempo) são alguns dos elementos problemáticos introduzidos pelo filme.

Vale citar a decisão do filme de fragmentar a história em três partes, na qual cada uma irá trazer uma parte da juventude do personagem, sempre optando por um ator diferente para viver os períodos. Essa fragmentação atua de forma única na experiência do espectador ao captar o filme e gera a substância “deveniente” do personagem explicitada pela simples troca de nomes para reconhecê-lo.

O personagem é tratado como Chiron na primeira história, Little na segunda e Black na terceira. O fator que propicia toda a substância para as três frentes é o fato do roteiro não se prender na tentativa de expor cada detalhe da vida do jovem. Aqui, muito é deixado para o campo perceptivo do espectador. É exatamente o espectador que termina as construções para cada história, cada situação enfrentada. Essa decisão deixa o filme mais dinâmico e aprazível.

É importante nos introduzirmos aos temas que o filme trabalha. Exposto na figura da homossexualidade do personagem, há um estudo sobre os caminhos do preconceito e suas mais diversas formas de atingir o indivíduo. São estudados, também, os rumos aleatórios de uma vida, como dito anteriormente. Mas o ponto chave são os questionamentos sobre como um indivíduo se desenvolve em uma concepção social tradicional. Aqui, toda aquela camada sobre estigmas está presente. O indivíduo de determinada parte social da sociedade será, ao passo que sua vida se desenvolve, levado a agir exatamente da mesma forma que os diversos estigmas apontam. Algo que torna a questão bem evidente e mais simples de ser entendida se aloca na profissão escolhida pelo personagem central no início de sua vida adulta. A subjetividade do ser humano é completamente ignorada.

Os desfechos da obra somente vão se aprofundar no que o resto do filme já mostrou antes. Não há espaços para surpresas ou reviravoltas. Tudo acontece da forma mais clara e simples. O que sobra é campo para o espectador ponderar sobre o futuro do personagem, seus caminhos possíveis e eventuais instâncias transformadoras. No entanto, a verdade é que, pautado em uma visão realista, os trajetos do personagem talvez não seja os mais satisfatórios, os mais assertivos. Porém, como o filme expôs em todo o resto, fica a encargo do espectador definir os rumos da trama após a subida dos créditos.

Caminhando para o campo da direção, veremos Barry Jenkins executar um belo trabalho. O diretor vai se utilizar muito da beleza natural dos ambientes onde a trama se desenvolve para dar substância às suas cenas. Sempre com o auxílio da fotografia excelente de James Laxton, norteada por tons quentes e enquadramentos precisos, o filme foca em planos que evidenciem as feições dos personagens ou, em camadas mais abertas, no ambiente como ponto secundário para os personagens.

Em relação às atuações, teremos espaço para vários atores consumarem posições importantes para o filme. Naomie Harris, como a mãe do protagonista, tem uma atuação exacerbada, mostrando os efeitos que as drogas podem ter no aparato emocional de uma pessoa. Vivendo o personagem central, vamos ter três atores. Ashton SandersAlex R. Hibbert e Trevante Rhodes acabam tendo atuações bastante similares, todas ótimas. No entanto, quem mais se destaca é Sanders, na segunda parte da história, trazendo a jornada mais intensa da vida do personagem. Mas, sem dúvidas, o destaque do filme vai para a curta atuação de Mahershala Ali. É Ali o pilar onde o filme pode conduzir sua história. O ator consegue, sempre com uma atuação calma e simples, expor um personagem experiente na tentativa de passar algo produtivo para uma geração em desenvolvimento, refletida em Chiron.

Moonlight’ acaba não se caracterizando como uma obra-prima, mas toda a densidade de sua trama, a qualidade do roteiro, direção e atuações elevam o filme em relação a outras obras. Um filme que não precisa de uma enorme duração para consumar a efetividade dos temas mostrados. Obra sobre a vida, a inexorabilidade da mudança e sobre a luta entre forças presentes no mundo.

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