Crítica: ‘O Pecado Mora ao Lado’(1955), de Billy Wilder

Construindo uma comédia sobre os laços matrimoniais e seus eventuais problemas, Billy Wilder nos entrega um filme leve e dinâmico que cumpre sua proposta. Longe de alocar-se entre as grandes obras do diretor, ‘O Pecado Mora ao Lado’, no entanto, traz o que há de mais comum na filmografia de Wilder, trabalhando com ambientes limitados, personagens erráticos e a figura feminina como força propulsora para as atitudes emanadas da trama.

A história do filme se concentra no período de férias de uma família tradicional americana. Neste período, Richard Sherman decide não viajar com sua família, tendo como desculpas seu trabalho, ficando sozinho em sua casa enquanto sua mulher e filho curtem o período de calor. A trama do filme ganha sua força quando Sherman acaba por conhecer uma jovem e atraente vizinha, dando início a uma batalha pela preservação de sua fidelidade ao casamento.

O início da trama apresenta uma figura narrativa, presente somente neste começo, que trabalhará por alocar o espectador nos nuances da história. Essa figura de um narrador poupa tempo para o filme, conseguindo rapidamente e de forma bem-sucedida nos introduzir todos os personagens centrais, assim como o ambiente onde a obra se desenvolverá.

Apesar da velocidade concebida pelo narrador na história, logo após esse fragmento, o filme perde sua dinamicidade, explorando lentamente seus personagens e situações. Aqui, teremos toda a síntese do comportamento de Sherman, tateando sobre seus prazeres e dúvidas. E encontra-se neste momento o ponto mais fraco de todo o filme.

Existe uma deslocação do centro da história, na qual o filme passa a utilizar construções fictícias da cabeça do personagem central, cenas ilusórias, tentando evidenciar toda a densidade do pensamento do homem e a importância de cada decisão tomada por ele. O problema é que esse recurso acaba se tornando muito repetitivo, ficando maçante para o espectador.

No entanto, conforme avançamos sobre a trama, esses recursos acabam ficando cada vez menores, se encaixando na história e passando, até mesmo, a fazerem-se divertidos. E, por intermédio desses recursos e pelo modo confuso de agir do personagem, o filme traz a constituição moral impregnada na sociedade americana do século XX.

O conceito central de moralidade no personagem aparece desde questões pequenas, como fumar ou não um cigarro, ou em maiores, como a possibilidade de trair sua esposa. Veremos como o homem age abaixo desses preceitos básicos impostos pelo âmbito social, sendo completamente conduzido por eles, internalizando seus próprios desejos e decisões.

A reta final continua o bom prosseguimento da obra. Piadas e situações cômicas acabam por cumprir seu objetivo. Teremos os eventuais clichês de obras da época seguidos à risca, sem, no entanto, significar algo ruim para o filme. Tudo regido pela forma simples e leve mencionada acima.

Entrando ao campo da direção, veremos Billy Wilder conduzir um trabalho extremamente produtivo. O diretor, assim como em outros filmes de sua carreira, como ‘Se Meu Apartamento Falasse’(1960) e ‘Cupido Não tem Bandeira’(1961), por exemplo, utiliza poucos ambientes para reger a história. Aqui, toda a camada substancial do filme acontece no apartamento de Richard Sherman. Poucas são as cenas fora deste ambiente. Neste apartamento, Wilder consegue fazer com que o filme não fique insosso, sabendo sempre alternar na construção de seus planos, jamais ficando preso por muito tempo em alguma esfera do cenário.

No elenco, comandado por Marilyn Monroe e Tom Ewell, veremos uma parceria positiva. Tanto Ewell quanto Monroe conseguem entregar atuações de qualidade e entreter o espectador nas cenas mais importantes do filme. Todo o resto do elenco acaba tendo posições muito pequenas na trama, não simbolizando o bastante para se destacarem de forma positiva ou negativa.

O Pecado Mora ao Lado’ consegue trazer uma qualidade a qual estamos acostumados quando falamos no nome de Billy Wilder. Um filme que consegue combinar boas situações de humor com uma visão acerca da sociedade americana da época. Até mesmo os erros do filme acabam sendo sobrepujados no decorrer da trama. Não adentra aos melhores filmes do diretor, como falamos no começo, mas, sem dúvidas, merece um lugar de destaque na enorme filmografia do cineasta.