Crítica: ‘Aquarius’(2016), de Kleber Mendonça Filho

Produzindo um trabalho irretocável, assim como em seu filme anterior, Kleber Mendonça Filho traz aqui uma obra sobre a inexorável passagem do tempo, abalizando o aspecto empedernido do passado nos indivíduos estudados. Um filme que eleva problemáticas sociais potencialmente pequenas, adentra ao campo da desigualdade social e sua inseparável injustiça e nos apresenta uma personagem marcante. ‘Aquarius’ é sobre a vida em todos os seus âmbitos.

A história do filme se concentra em destrinchar a vida de Clara, uma mulher de 65 anos, aposentada, reconhecida por seu trabalho de outrora, que acaba por se encontrar em um dilema substancial quando o histórico prédio em que vive é alvo de uma grande construtora que deseja transformar completamente o local. Representando a última moradora do prédio, após todo o resto do condomínio ter vendido seus apartamentos para a construtora, Clara vive uma luta aparentemente perdida para preservar o lugar, assim como suas memórias de um passado ainda pulsante.

Logo em seu espectro inicial, a obra nos apresenta uma pequena coletânea de fotos do passado, expondo as belezas naturais de determinados locais. Aqui, teremos a emanação de uma atmosfera aprazível, sempre com uma música de fundo que acompanha o clima, a fim de propiciar ao espectador pequenos fragmentos do conceito que o filme se apoia em seus 146 minutos de duração: a nostalgia.

Conforme adentramos na história em si, somos levados diretamente para a década de 1980, vislumbrando um pequeno trecho da vida da personagem central, entendendo seus prazeres e traumas recentes. Essa volta ao passado também expõe a importante figura da tia Lúcia. A tia Lúcia é a esfera inicial, ainda no ano de 1980, em uma festa dada em homenagem ao seu aniversário, que mostra a substância implacável do tempo e como este, às vezes, se repete em formas. Repetição que se encaixará mais de 30 anos depois, agora no presente, com a vida de Clara. Vale lembrar que o filme ainda elenca uma volta ainda mais feroz ao passado, expondo pequenos trechos da juventude da própria tia Lúcia.

Clara demonstra um apreço muito forte pela figura do passado. Mesmo não se notabilizando por uma inércia em sua vida, há evidentemente uma comunicação leve e aprazível com o presente, a mulher possui móveis antigos, uma coleção infindável de discos de vinil e, como citado acima, uma completa devoção ao seu prédio, agora uma instituição quase fantasma.

No entanto, a figura do passado não é feita unicamente de pontos positivos. Clara também esconde marcas da vida, sejam elas psicológicas ou físicas. Mas, mesmo com essas marcas, o passado ainda é belo para Clara. O passado é belo e o tempo machuca. O aspecto do devir contido no mundo, esse eterno processo de mudanças, fere a personagem. Heráclito, filósofo pré-socrático, já tateava sobre o aspecto da mudança, afirmando: “Ninguém entra em um mesmo rio uma segunda vez, pois, quando isso acontece, já não se é o mesmo, assim como as águas que já serão outras”. Já Nietzsche, filósofo do século XIX, trabalhava sobre a essência niilista destrutiva do passado, uma instância que serve para negligenciar o presente, evidenciando uma espécie de além-mundo distorcido. Clara é a síntese opositiva das ideias dos filósofos citados. Clara quer banhar-se duas vezes no mesmo rio. Ou, pelo menos, tenta.

O filme consegue, por intermédio de objetos, impregnar sua construções ao espectador. Temos aqui a cômoda, talvez única instância intacta e inatingida pelo tempo. Exposta nos três períodos de tempo em que o filme trabalha, essa cômoda é olhada com uma espécie de devoção pelos personagens, representando uma entidade pulsante oriunda de tempos que já não existem.

Ao adentrar à reta final da obra, veremos como a eventual ameaça ao prédio acaba surgindo como uma tentativa de destruição ao passado de Clara. Suas lutas para preservar o local são motivadas pela aura nostálgica de seu pensamento empedernido. O filme também trabalha nesse final, assim como em ‘O Som Redor’(2012), obra anterior do diretor, com as problemáticas sociais de uma sociedade exacerbada. Aqui, as injustiças sociais atingem a todos, independente de suas classes, sempre resultando em uma demonstração de força e poder de determinados indivíduos. A maior virtude do filme nesse aspecto é não delimitar a importância de eventuais acontecimentos. Uma simples discussão sobre o dia a dia comum é tratada da mesma forma que uma ameaça à vida de um dos personagens. Junto com isso, investigaremos o valor das relações sociais e sua importância no desenvolvimento do indivíduo.

No campo da direção, Kleber Mendonça Filho somente explicita o porquê de se notabilizar como um dos melhores cineastas brasileiros da atualidade. O diretor sabe conciliar a beleza à trama. Teremos planos sempre irretocáveis, prezando pela plena captação de todo o conteúdo que um ambiente, indivíduo ou objeto têm a oferecer. Tudo é sempre muito bonito, traz encanto ao espectador. Encanto que faz com que um filme teoricamente longo consiga ser veloz em seus desnivelamentos, sem atropelar o roteiro.

Em seu elenco, teremos a atriz Sonia Braga comandando todas as ações do filme. A atriz tem uma atuação soberba, dominando cada cena em que está exposta, se aproveitando dos planos imersivos do diretor para elencar toda a substância de sua performance. O resto do elenco, até mesmo pela proposta central, está completamente sobrepujado pela atuação da atriz.

‘Aquarius’ demonstra destreza ao caminhar levemente sobre épocas distintas e apresentar uma visão contemplativa sobre os passos de um indivíduo sobre o mundo. Um filme que ainda trabalha com questões sociais relevantes sem tornar-se maçante ou raso. Sua direção de qualidade e sua protagonista forte complementam a obra.

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