Crítica: ‘Faces’(1968), de John Cassavetes

Oferecendo esboços da construção humana em sua diversas formas de contato social, John Cassavetes traz uma obra potente. Um filme que se ampara no tradicional modelo de filmagem do diretor, nutrindo um ritmo cadenciado, destrinchando quatro personagens despidos de qualquer forma de amarras morais.

A trama do filme, também escrita por John Cassavetes, nos coloca para vivenciar pequenos fragmentos das vidas de quatro personagens. Os fragmentos dispostos vão mostrar, sempre de forma crua, os indivíduos em conversas paralelas, expondo angústias, prazeres e dúvidas, assim como veremos a figura da traição bastante presente.

O início prezará, sem fazer uma apresentação de seus personagens, por expor diversas formas de relações sociais potencialmente irrelevantes. Aqui, teremos planos longos, permeados de diálogos grandes, que trabalham por ambientar o espectador à atmosfera que o filme pretende seguir. Esses diálogos irrelevantes são expostos como se o espectador fizesse parte do filme, sendo construídos sem omitir nada. Veremos, por exemplo, os personagens terem discussões fúteis, performarem pequenas imitações e cantarem. Isso promove uma maior absorção dos conteúdos que aqueles indivíduos tem a demonstrar.

Sempre se movendo de maneira lenta, teremos uma construção inicial que demora para ser finalizada. Porém, quando o faz, consegue trazer espectros de cenas magistrais, que conseguem ultrapassar o conteúdo apresentado pelos personagens. E se encontra neste ponto o pilar que moverá toda a trama.

Se fazendo possível por intermédio do álcool (instância presente durante todo o filme), os personagens dispõe no ambiente todo um conteúdo instintual rechaçado. Pulsões ecoam em tela. Nada permanece o mesmo, tudo é alterado pela forma rústica e sem limites que aqueles indivíduos se comportam.

 

Amarras morais são corrompidas ao avançar da trama. Certo ou errado deixam de existir para os personagens, sobrando apenas a definição de vontade. Exatamente por se valer de cenas sempre muito extensas, o filme se resume em trazer pequenos momentos das vidas dos indivíduos abordados, não havendo a presunção de categorizar tudo o que acontece em tela como construções empedernidas.

Ficaremos envoltos nessa repetição incessante de uma trama que se desenvolve a partir de meras situações cotidianas. Todos os eventos transpostos ao espectador são densos e significantes por sua simplicidade. A figura da traição, citada acima, é colocada no filme sem o tradicional senso de reprovação que a tange, sendo vista como algo natural e humano. O término do filme poderia muito bem ser seu começo, já que aqui não há um olhar preocupado em trazer uma história com vertentes comuns, há, simplesmente, a tentativa de mostrar uma pequena conjunção de relatos humanos vistos no dia a dia de qualquer indivíduo.

No campo da direção, veremos John Cassavetes executar à risca o modelo de trabalho que nos acostumamos a ver em sua filmografia. Tudo é regido por um senso documental, com planos extremamente fechados nos rostos dos indivíduos e sem uma preocupação abrangente com o lado estético do filme. Cassavetes também opta por construções de cenas longas, tentando sempre extrair o máximo de substância das situações. Outro ponto, talvez o mais valoroso de seu trabalho, é o de propiciar aos seus atores um território gigantesco e aprazível para regerem suas atuações. E o elenco deste filme consegue aproveitar a direção de Cassavetes.

Veremos Gena RowlandsJohn MarleySeymour Cassel e Lynn Carlin comandando o arco central da história. Esse elenco acaba possuindo atuações viscerais, sempre delimitados por demonstrações exacerbadas do compêndio humano que compreende cada personagem. Os destaques do filme, no entanto, acabam ficando concentrados nas atuações de Rowlands e Cassel, que estão impecáveis em cada cena onde estão expostos.

Faces’ é um filme sobre a origem errática do ser humano e seus comportamentos, muitas vezes, ausentes de sentidos e destrutivos. Cassavetes propicia ao seu espectador o melhor que o cinema tem a oferecer, conseguindo lograr êxito em cada investida. Um filme longo, lento em seus caminhos, mas que, ao seu término, faz com que o espectador sinta a vontade de vivenciar todo o conteúdo exposto novamente.

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