Crítica: ‘A Ilha Nua’(1960), de Kaneto Shindô

Expondo os caminhos tortuosos da vida, Kaneto Shindô nos traz uma obra sobre a difícil jornada pela sobrevivência de uma família. ‘A Ilha Nua’ ainda apresentará o silêncio como instância propulsora para a dinâmica da trama, a rotina como fenômeno descaracterizador e a beleza natural como componentes estabilizadores, atenuando o sofrimento transposto ao espectador.

A trama do filme nos coloca para acompanhar a difícil rotina diária de um casal e seus dois filhos pequenos. Vivendo em uma ilha habitada somente por eles, o casal tem que passar por um cotidiano permeado de sofrimento e persistência pela simples possibilidade de sobreviver. O filme ganhará sua substância ao esmiuçar o processo degenerativo da vida iminente que aquelas pessoas estão inseridas.

Os trajetos iniciais do filme procuram expor toda a magnitude da vida dos personagens centrais. Passaremos a acompanhar todos os nuances da vida do casal, inserindo-nos nas diversas batalhas enfrentadas a cada passo consumado no mundo, em uma esfera social na qual não há divisões por sexo, cada um executa as mesmas funções.

Concomitante a essa exposição da vida do casal, também somos introduzidos ao elemento mais impactante do filme: o silêncio. Aqui, tudo é regido pelo silêncio. As relações sociais simplesmente não existem. Nem mesmo para tatear sobre o campo das obrigações. Tudo aqui está solidificado pela falta de palavras. Tudo o que temos para tornar a experiência de assistir o filme mais aprazível são os sons naturais e uma trilha sonora que atua por trazer beleza ao sofrimento.

A ausência de palavras explicita uma vida padronizada, sem que seja necessária alguma interferência externa. Nem mesmo gestos são dispensados no ambiente. Tudo é o mesmo. Tudo é igual. E é neste ponto que podemos traçar um panorama mais estendido, pulando para o século XXI, encontrando uma obra que se assemelha bastante a esta.

Tudo o que é exposto ao espectador nesta obra nos remete ao filme ‘O Cavalo de Turim’(2011), obra-prima de Bela Tarr. A utilização do silêncio para evidenciar o que de pior o ser humano tem a oferecer, a trilha sonora maçante e repetitiva, simbolizando a ordem caótica dentro da repetição e o aspecto degenerativo inexorável (físico e psicológico) ao qual os personagens de ambos os filmes estão inseridos. O fator discrepante entre os dois é a aura mais pessimista da obra de Tarr, enquanto Shindô opta por trazer pequenos fragmentos (efêmeros, é claro) de vida em suma.

O construto final do filme elenca a figura cruel do tempo. Naquela família, a instância mutável e “deveniente” do tempo se encontra solidificada. Empedernida, essa estrutura parece não avançar. Os personagens parecem não envelhecer e o ambiente ao seu redor não se altera. E com a certeza de que as coisas, simplesmente, não se alterarão, o filme termina.

A direção da obra é irretocável. Kaneto Shindô sabe fazer a dicotomia entre o dia a dia do casal e de seus filhos, cruéis e insossos, e a beleza inerente do ambiente que os cercam. Os planos focados na beleza natural são o contraponto ao sofrimento do casal. Calmos, esses planos tentam trazer ao espectador todos os nuances que permeiam aquele lugar. O diretor também obtém sucesso em sua investida na despersonalização de seus personagens, em planos mais afastados e repetitivos.

No campo do elenco, somente somos expostos a quatro atores, em especial a dupla que comanda o casal, com as presenças de Nobuko Otawa e Taiji Tonoyama. Os dois possuem atuações limitadas pela proposta do filme, alcançando o maior destaque na questão física, com a intermitente repetição das rotinas dos personagens.

A Ilha Nua’ trabalha com os diversos caminhos que a vida humana pode trilhar. Uma obra triste, que, ao seu término, provoca um sentimento confusão no espectador pela densidade do conteúdo assistido. São 96 minutos explicitando uma forma de beleza aterradora do mundo. Pérola do cinema japonês.

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