Crítica: ‘Prisão’(1949), de Ingmar Bergman

Consumando-se, de fato, como uma das obras mais fracas da carreira do lendário Ingmar Bergman, este filme até tenta utilizar conceitos clássicos do cineasta, mas falha na execução de todos eles. ‘Prisão’, ainda expondo um protótipo do que Bergman viria a ser poucos anos depois, trabalha com o existencialismo, pautará sua trama pelo intercâmbio entre real e imaginário e irá transpor ao público uma aura teatral em suas cenas mais intensas.

A trama do filme, também roteirizada por Bergman, traz em seu começo os passos de um diretor de cinema que é abordado por um amigo com uma ideia para um próximo trabalho. Após escutar a ideia pessimista deste amigo sobre o mundo para um próximo roteiro, somos introduzidos aos nuances centrais da história, com uma trama permeada de sofrimento sobre o ser humano.

A camada inicial do filme é sagaz, utilizando um prólogo misterioso para atrair a atenção de seu espectador, além de suas estocadas existencialistas sobre o papel do homem no mundo. No entanto, essa boa condução inicial da trama começa a ser deixada para trás com seus desnivelamentos tortuosos.

Existe a escolha do filme em entregar uma atmosfera densa, pouco aprazível, que promove sempre sofrimento aos personagens expostos. O desenvolvimento da história é todo muito confuso. Não sabemos exatamente o que está acontecendo integralmente em determinados pontos. Tudo aqui é muito exagerado. Não há espaço para construções verossímeis de história.

Junto com essa confusão, teremos uma superficialidade intrínseca ao roteiro. Cada conflito emanado nos personagens procura, inexoravelmente, a transposição de gritos e gestos extremos daqueles indivíduos, já que o conteúdo da trama disposto se faz raso demais. Outro ponto negativo aqui é a lentidão que o filme se move

Mesmo com apenas 79 minutos de duração, o filme é extremamente devagar em suas transições de cenas e elementos da história. A cada cena ultrapassada, seguiremos um ritmo ainda mais lento, tornando-se maçante em vários pontos da trama, fazendo o espectador perder o envolvimento e sentimento de importância com os personagens e desejar somente o seu término.

Porém, nem tudo norteia-se como negativo nesta obra. A decisão de trazer um filme que opta por caminhar sempre entre o real e o imaginário é acertada. Somos introduzidos a uma espécie de pesadelo nos passos dos personagens centrais, com resoluções dolorosas para todos os envolvidos.

Adentrando ao campo da direção, veremos Ingmar Bergman conduzir um trabalho regular à frente do filme. Bergman exagera na criação de uma aura teatral para as cenas, deixando tudo muito truncado e com construções melodramáticas sofríveis. O diretor ainda sofre no ritmo do filme, não sabendo trabalhar com o tempo. O maior erro, no entanto, se concentra na inclusão demasiada de cenas onde os personagens dispõem comportamentos histéricos, com gritos e afins.

No elenco, com as presenças de Doris Svedlund e Birger Malmsten, veremos atuações positivas. Svedlund acaba tendo que interpretar uma personagem difícil, permeada de cenas complexas, conseguindo transpor ao público todo o compêndio de sofrimento que a define. No outro eixo, Birger Malmsten, nome comum ao cinema de Bergman neste início de sua filmografia, acaba não tendo sua atuação mais impactante da carreira, mas também nos propicia um bom trabalho.

Apesar de fraco em sua concepção, ‘Prisão’ se notabiliza como um filme necessário, simplesmente, por pertencer a Ingmar Bergman. Isso é o bastante para que a experiência de assisti-lo seja minimamente satisfatória. Outro aspecto legal de se levar em conta é a maior liberdade que o sueco já começava a ter em seus filmes, colocando cada vez mais de sua própria essência nas obras.

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