Crítica: ‘O Marido Era o Culpado’(1936), de Alfred Hitchcock

Explicitando a essência corruptiva do ser humano, ‘O Marido Era o Culpado’ traz uma trama fria em seus desnivelamentos sempre cruéis. Apesar de possuir alguns problemas em sua execução, o filme acaba se caracterizando por sua síntese ousada, entregando caminhos pouco usuais para uma história na época, servindo, ainda, como bom esboço do que seu diretor, o lendário Alfred Hitchock, viria a fazer nos anos seguintes.

A trama, baseada no romance de Joseph Conrad, apresenta a história de um agente infiltrado da Scotland Yard na busca desenfreada pelos responsáveis por diversas explosões de bombas em Londres. Além de explorar a figura desse agente, o filme também faz o contraponto com um dos nomes responsáveis pelas explosões, explorando seu cotidiano e seu modo errático de agir sobre o mundo. A trama ganhará força quando ambos os personagens passam a viver um “jogo de gato e rato”, resultando sempre em acontecimentos trágicos.

O começo do filme segue um padrão bastante lento para introduzir todos os personagens e reger sua trama. Aqui, em virtude da decisão do roteiro de abranger substancialmente indivíduos, tudo se move de maneira cadenciada. Cada personagem terá um tempo abrangente em tela para a trama apresentá-lo ao espectador, evidenciando seu modo de agir e pensar. O grande problema dessa decisão é que os dois personagens centrais acabam tendo exatamente o mesmo tempo que elementos secundários em suas abordagens, deixando uma lacuna nesse desenvolvimento inicial.

Conforme avançamos, veremos o filme ganhar alguma dinamicidade. O espectador aqui é parte atuante na trama, na qual conseguimos, assim como o agente central da história, trabalhar com pistas diversas, fazendo presunções acerca dos possíveis envolvidos e errando em algumas conclusões apressadas. E é exatamente neste ponto que o filme subverte seus rumos, trabalhando em diversas vertentes diferentes, como a da investigação, do investigado, das partes atingidas e dos maiores responsáveis pelos ataques por Londres, impregnando em sua atmosfera o ar de incongruências que toma todos os desnivelamentos da trama.

Essas incongruências se revelam em todos os personagens, cada um de sua forma específica e movida por determinado elemento. Aqui, o ser humano é tratado como espécie suscetível as mais diversas formas controle. As dificuldades sociais surgem apenas como desculpa para o indivíduo sucumbir a uma vida de atitudes destrutivas.

Caminhando para a esfera final do filme, veremos emanar algumas lacunas do roteiro, tornando alguns componentes dos trechos decisivos da história sem peso para o espectador. No entanto, veremos, sempre, o filme tomar caminhos que fogem ao comum. O espectador não consegue racionalizar corretamente os caminhos da história, sendo sempre surpreendido a cada cena.

No campo da direção, conduzida por Alfred Hitchcock, teremos um trabalho competente como o habitual. Sempre trabalhando por manter o espectador engajado com os rumos da história, Hitchcock preza por utilizar construções de cenas onde, apesar de atuarmos de forma voyeur em determinados momentos dos personagens, não conseguimos decifrar o que de fato aconteceu. O diretor nos entrega, como natural em sua filmografia, o conceito da suspeita, algo eternizado quase 20 anos depois em ‘Janela Indiscreta’(1954). Vale ressaltar que o diretor atua na atmosfera do filme sem o apoio de uma trilha sonora evidente, comprometendo algum brilho das cenas mais impactantes.

No campo do elenco, temos nomes como Oskar Homolka, John Loder e Sylvia Sidney conduzindo a trama. Todos acabam entregando atuações positivas, sem, no entanto, chamarem muito a atenção. Cada um entrega o suficiente e nada mais para uma boa execução de cada cena.

Mesmo não se fazendo ausente de equívocos, ‘O Marido Era o Culpado’ consegue se aproveitar de um bom estudo de seus personagens e da tomada de decisões pouco usuais para atrair a atenção de seu espectador. Junte esses dois elementos a boa direção de Alfred Hitchcock e você terá um filme que certamente vale o tempo investido.

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