É sempre difícil trazer para o cinema histórias que retratem
períodos políticos conturbados de determinados países. Essas obras, geralmente,
possuem grande chance de tornarem-se insossas caso a direção não faça um bom
trabalho. Aqui, no entanto, em ‘A Vida dos Outros’, o contexto político da
época em que o filme acontece atua meramente como pano de fundo para evidenciar
toda uma mentalidade pobre de um lugar regido por uma aura exacerbada. O filme
ainda propõe ao espectador o estudo de vários conceitos disformes, como a visão
limitada dos personagens expostos, a mentalidade do país que é guiada por uma
moralidade dos fracos, a troca de posições sociais que o afeto provoca no ser
humano e a noção de solidão e obsessão como uma estrutura danosa ao indivíduo.
A trama concentra-se nas vidas de três personagens: um
escritor de peças de teatro, uma atriz e um agente do serviço secreto alemão.
Todos inseridos na turbulenta Alemanha Oriental da década de 1980. Quando esse
agente é incumbido de monitorar, por meio de escutas, as vidas do escritor e da
atriz, ele acaba se vendo inserido em uma realidade na qual jamais teve acesso,
vindo a ficar cada vez mais sugado pela vida dos dois, questionando seus
deveres e suas construções morais.
A reta inicial da obra preza sempre em deixar claro qual vai
ser a dinamicidade que será trabalhada, seguindo calmamente pela introdução dos
personagens relevantes para a trama. Essa introdução serve para esmiuçar as
personalidades de cada figura exposta no filme, trabalhando por não esconder
absolutamente nada sobre seus eventuais comportamentos futuros. A grande jogada
do roteiro centraliza-se unicamente nos desfechos dos passos dos personagens
após essa abordagem inicial.
Essa primeira parte do filme também traz a visão política e
social da Alemanha Oriental naquela época, mostrando como as pessoas do lugar
nutriam uma visão completamente deturpada sobre o mundo. Aqui, o indivíduo é
visto de uma forma ultrajante, dando a este uma capacidade intelectual
limitada, revelando unicamente uma visão de mundo. Visão de mundo que trabalha
unicamente em propiciar sofrimento à camada sem poder da sociedade alemã. E é
neste ponto que a obra nos apresenta o conceito filosófico da moralidade dos
fracos.
Moral dos fracos, segundo o conceito proposto por Nietzsche,
caracteriza-se pela negação do real, do corpo, em prol de uma realidade
ascética, que foge ao material realmente palpável pelo indivíduo. O grande fato
danoso dessa moral, segundo Nietzsche, encontre-se na subversão dos valores
realmente positivos do mundo, norteando a vida por construções falsas,
valendo-se sempre de um niilismo intrínseco ao modo de ser. No filme, o conceito
encaixa-se perfeitamente na sociedade alemã da época, que criava padrões de
bons costumes surreais, desprezando a construção subjetiva do indivíduo,
dizendo para este o que é bom e o que é ruim. O personagem principal, o agente
do serviço secreto, é a materialização de todo esse construto danoso ao ser
humano.
O agente que monitora a vida do casal de artistas se vê cada
vez mais em dúvida sobre sua realidade quando começa a adentrar aos costumes,
alegrias e tristezas de ambos os investigados. Logo, começa a conceber um novo
ideal de homem, ignorando suas diretrizes seguidas à risca em outrora. A grande
virada do roteiro acontece neste ponto, quando o homem começa a negligenciar
seus deveres por encontrar no casal um reflexo turvo de si mesmo.
O filme sofre um desnivelamento brusco em seu rumo,
alterando os caminhos dos personagens e dando mais velocidade à trama.
Personagens trocam de posições, os deveres morais inseridos na síntese de cada
um no começo da obra sofrem uma desconstrução e o valor da vida é suprimido
mediante a concessão de liberdade. Cada um de sua forma, presos por uma
estrutura social castradora, os personagens libertam-se de suas amarras,
sofrendo, nos três eixos centrais da história, um processo simbiótico, mesmo
que estes não se deem conta, resultando em cenas finais memoráveis, “tatuando”
na cabeça do espectador todas as ideias propostas pela trama.
Dirigido por Florian Henckel von Donnersmarck (que também é responsável pelo
roteiro), o filme faz bastante uso de planos centrados na feição de seu
protagonista, revelando, com cenas simples e despretensiosas, todo o vazio
inserido naquele indivíduo, sofrendo uma espécie de congelamento do tempo.
Esses planos são exclusivos do personagem. Quando adentramos planos onde o
homem não está, veremos tomadas mais leves, utilizando construções de cenas
mais ágeis e movimentadas. Donnersmarck opta somente por exacerbar o ritmo do
filme nessas situações, guiando todo o resto da obra sem exageros superficiais.
Todo o trabalho de ritmo fica localizado na trilha sonora impecável do filme.
Comandada por
Stéphane Moucha e Gabriel Yared,
a trilha sonora atua por nortear completamente os aumentos e diminuições das
informações deixadas pelo roteiro. Quando necessário, essa trilha se faz sutil
e cadenciada, expondo os gestos calmos do protagonista e do casal investigado.
Conforme avançamos sobre a trama, a trilha aumenta a densidade de suas
composições, aderindo às demandas de cada desdobramento da história.
Adentrando ao
campo do elenco, temos atuações competentes que ajudam a dar peso a toda a
história exposta pelo filme. Como o casal investigado, Sebastian Koch e Martina Gedeck conseguem expor toda a aura de repressão que rege o lugar e suas vidas,
sempre com atuações comedidas, pautando-se na execução do simples. No entanto,
a grande atuação é a de Ulrich Mühe no comando do filme. Muhe entrega uma atuação soberba, guiando
completamente o filme, sempre baseando sua performance em uma expressão
corporal precária, com um andar arrastado e cansado, dando intensidade somente
em suas expressões faciais e olhares fortes. Uma atuação memorável do saudoso
ator.
Intenso do
começo ao fim, ‘A Vida dos Outros’ é uma obra irretocável. Um filme que se
insere no âmago das exacerbações de uma sociedade errática, trabalhando com
diversos conceitos diferentes, para constituir os elementos mais significantes
de sua história. Uma verdadeira obra-prima do cinema alemão.
Nota CI: 8,1 Nota IMDB: 8,5
Filmografia:

VIDA dos
Outros, A. Direção: Florian Henckel von Donnersmarck. 2006. 137 min. Título Original: Das Leben
der Anderen.